- Nº 2739 (2026/05/28)
Com curadoria de Miguel Falcão e direcção de arte de Artur Pinheiro, decorreu no Museu do Neo-Realismo, de 29 de Novembro de 2025 a 26 de Abril de 2026, a exposição “Espelhos de Ver por Dentro – O Teatro no Neorrealismo Português”, mostra que juntou, nesse importante espaço museológico de Vila Franca de Xira, o melhor e a mais representativa produção do teatro comprometido com o real, levado à cena desde os finais dos anos 1940 até aos nossos dias.
«Desde o início que os neorrealistas viram no teatro e na sua vitalidade um parceiro decisivo na divulgação de uma mensagem de compromisso com a dignidade humana e a sua divulgação comunitária», escreveu David Santos, director científico do Museu, no catálogo que acompanha a exposição. A pesquisa e o empenho de Miguel Real e seus colaboradores fizeram o resto, ou seja, deram-nos a ver, num espaço vivo, implantado como se de uma encenação mágica da memória se tratasse, as diversas abordagens de peças importantíssimas do universo criativo do neo-realismo.
Nessa mostra, fundamental para se entender, nos nossos dias, o que foi a luta de muitos profissionais e amadores, homens de cultura, dramaturgos, cenógrafos, encenadores, actores, ao longo de 48 anos, para romperem a cerco da Censura e tornarem possível que o grande público tivesse acesso a espectáculos dignos, memoráveis e históricos como aqueles que os textos de teatro neo-realista permitiram mostrar, tanto em palcos profissionais, como em inúmeras colectividades populares espalhadas pelo país, onde grupos do teatro de amadores mantinham viva a arte de Talma.
A mostra exibia igualmente inúmeros documentos da Censura, proibindo, ou autorizando com cortes, descaracterizando-as, as peças que eram submetidas a “exame prévio”. A peça de Redol, “Forja”, publicada pelo autor em 1948, só em 1969 teve estreia profissional, numa encenação de Jorge Listopad, constituindo um enorme êxito.
Algumas peças, como as de Avelino Cunhal, conseguiram furar o cerco, mas apenas no teatro radiofónico da Emissora Nacional. As suas peças, notáveis, “Os Dois Compartimentos”, “Ajuste de Contas” e “Tudo Noite”, publicadas pela Prelo em 1965, revelaram aos leitores mais atentos um dramaturgo lúcido e originalíssimo. Já em 1940, nas páginas de O Diabo, Avelino Cunhal publicava a peça em um acto, “Teatro Sem Palco”, denunciando a situação em que o fascismo mantinha alienado o público, impondo um teatro fortemente condicionado pela “política do espírito” de António Ferro e vigiado pelo aparelho repressivo do regime.
A par da exposição, foram realizadas seis sessões dedicados a seis peças e a outros tantos dramaturgos do universo neo-realista, enquadradas nas seis lições que compuseram o curso “Dramaturgia Neorrealista”. O curso, escreve Miguel Falcão no prefácio, «aberto ao público em geral e acreditado pelo Conselho Científico-Pedagógico da Formação Contínua para docentes de Português, História e Filosofia, teve um total de 15 horas, decorreu entre janeiro e março de 2026 e foi realizado em parceria com a Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Lisboa».
É o resumo dessas sessões, que este livro “Seis Estudos Sobre a Dramaturgia Neorrealista”, reúne, embora os textos selecionados pelos diversos ensaístas, mesmo se situados na “mundividência marxista”, estabeleceram abordagens estéticas diversas em relação ao “neo-realismo português”. Assim, temos o estudo de Paula Gomes Magalhães, “Por Um Teatro Socialmente Comprometido”, Ajuste de Contas, de Avelino Cunhal; de Miguel Falcão, “Experimentação Formal em Tempos de Luta Pelo Conteúdo”, Forja, de Alves Redol; Graça dos Santos, “Luz na Penumbra: Um Teatro Entre Inquietação e Resistência”, O Dia Seguinte, de Luiz Francisco Rebelo; Domingos Lobo, “O Processo Épico ou o Teatro Como Forma de Intervenção Social e Política, Felizmente Há Luar, de Luís de Sttau Monteiro; Edite Condeixa, “Um Ramo de Cravos Espanhóis”, O Cravo Espanhol, de Romeu Correia; Maria João Brilhante, “Para Um Teatro Épico e Documental”, A Traição do Padre Martinho, de Bernardo Santareno.
Estes estudos sobre seis peças e os seus respectivos autores, vêm provar a necessidade do teatro que hoje se faz entre nós, voltar a tematizar os problemas que o País enfrenta, aos seus fantasmas regressivos e ao combate, nesse território fértil que é um palco, contra as novas derivas fascizantes que começam a tentar sufocar-nos. Não o podemos permitir.