- Nº 2739 (2026/05/28)

Hollywood e o mundo real

Opinião

Atahualpa Yupanqui: “Quién ha ganado la guerra / en los montes del Vietnam? / El guerrillero en su tierra / y el yanqui en el cinema”.

Vem aí a mais recente vitória cinematográfica: a Universal Pictures vai produzir um filme “em torno da Operation Epic Fury” (Fúria Épica, a operação EUA/Israel de ataque ao Irão), focando-se na «verdadeira história de um massivo esforço de salvamento de dois pilotos abatidos durante os ataques de Abril de 2026».

Há versões contraditórias dessa “missão”, seja sobre a operação em si seja sobre quais os seus objectivos (dizem os EUA salvamento, diz o Irão rapinar urânio enriquecido). O Congresso dos EUA foi informado da destruição de dois aviões de apoio a operações clandestinas (entre 100 e 170 milhões cada, capazes de transportar cerca de 100 efectivos cada um), danos num helicóptero (280 milhões), mas não de quaisquer baixas de pessoal. A isso junta-se o F-15E anteriormente abatido (65 milhões). Mais de 200 operacionais para resgatar dois dá que pensar. E impressionam imagens colhidas por militares iranianos no local.

Hollywood tinha que se chegar à frente. Se, ao que se diz, a televisão a cores alterou a percepção pública da guerra do Vietname nos EUA (o vermelho do sangue), imagens obtidas por um simples telemóvel nas mãos de um obscuro iraniano podem fazer mais mossa que uma informação ao Congresso. E em Hollywood os EUA ganham qualquer guerra em que se tenham metido desde que existem – e são quase incontáveis.

Peças centrais no aparelho ideológico do imperialismo EUA, as grandes produtoras de Hollywood vão muito para além de ganhar guerras passadas, presentes ou futuras. Formulam como espectáculo – a que se assiste sem risco –, legitimam e justificam o recurso prioritário à acção e à violência armada. Há longos anos que os EUA se julgam imbatíveis no plano militar, político, moral e ético – por Hollywood os mostrar assim. O mundo real tende a mostrar o contrário.

 

Filipe Diniz