- Nº 2741 (2026/06/11)

Não houve truques capazes de apagar a força da greve geral

PCP

O sucesso da greve geral de 3 de Junho obrigou, como a 11 de Dezembro, que esta se tenha tornado o tema mediático da semana passada: apesar do silenciamento a que a sua preparação foi sujeita, de que é exemplo a ausência reiterada de praticamente todos os órgãos de comunicação social dos contactos com trabalhadores que o Secretário-Geral do PCP manteve durante o mês de Maio, tornou-se inevitável que esta ocupasse grande parte de todos os noticiários de dia 3.

Para isto não terá sido alheio um dos impactos menos visíveis mas muito expressivo da greve geral, a sua adesão na comunicação social. Terá sido, nos tempos recentes, a greve com maior expressão no sector, nomeadamente entre jornalistas, ainda que a sua dimensão seja difícil de apurar porque a generalidade das direcções de informação revelaram maior apego aos interesses dos seus patrões, fazendo tudo por esconder o efeito da greve, de que é maior exemplo o recurso pela TVI a uma dupla ilegalidade, contratando operadores de imagem sem carteira profissional a uma produtora para substituir os repórteres da estação em greve. Registe-se, no entanto, as excepções da Lusa (cuja direcção fez suspender os serviços da agência, não publicando nada ao longo do dia), do Público, que assumiu em nota a forte adesão no jornal que condicionou a edição online e em papel do dia seguinte, ou das rádios TSF e Antena1, com programas e noticiários ausentes da antena, assumidamente em resultado da adesão à greve.

Mas este não foi o único efeito da greve geral que os decisores mediáticos procuraram esconder. Tendo em conta a já conhecida linha argumentativa dos representantes do grande capital e daqueles ao seu serviço (em particular do Governo), de que as greves só têm expressão no sector público, seria natural que se repetisse. Assim foi, sendo objecto de noticiário e de debate (e até de inusitadas declarações de responsáveis partidários como Rui Tavares) a “guerra dos números”. Ora, a função primordial do jornalismo não é apenas apresentar uma leitura da realidade, mas apurar factos, indo onde é preciso estar para os revelar para lá da propaganda. Sendo certo que naquele dia os jornalistas eram um recurso escasso em muitos redacções, ainda assim foi possível manter directos televisivos ao longo do dia dando conta de constrangimentos em escolas públicas, serviços do SNS ou terminais de transporte, mas nenhum à porta de alguma das grandes unidades industriais que pararam nesse dia e que ajudariam a destapar a propaganda. Na Super Bock, por exemplo, cuja produção esteve parada (e não consta que seja possível produzir cerveja em teletrabalho), e onde nenhum órgão de comunicação social foi para apurar se, afinal, esta foi uma greve circunscrita a funcionários públicos e aos transportes.

Se, como se vê, a comunicação social não foi neutra na cobertura da greve e ainda assim não pôde esconder os seus efeitos, é porque, de facto, foi uma grande resposta dos trabalhadores de todos os sectores, incluindo o dos profissionais da comunicação social, ao pacote laboral.