O G7 e as mudanças

Ângelo Alves

Os EUA estarão perante uma significativa derrota

No momento que redigimos estas linhas, ainda não começou a cimeira do G7 em Évian-les-Bains. A incerteza sobre os resultados é grande, desde logo com a hipótese de esta vir a ser a segunda sem comunicado final, o que diz muito das dificuldades, contradições e decadente papel do G7 que o convite ao Presidente do Brasil – importante membro dos BRICS – tenta contrariar, pelo menos na aparência. Mas há mais… A semana em que se realiza a cimeira poderá também ser a da assinatura de um memorando entre os EUA e o Irão visando um cessar-fogo e o início de negociações com vista um acordo de paz abrangente. Os próximos tempos dirão se o memorando entrará em vigor, se será respeitado e se haverá de facto uma solução política para o quadro criado pelas frentes de guerra abertas pelos EUA e Israel na Palestina, Líbano e Irão.

Não obstante a incerteza que persiste, há verdades que nenhuma manipulação já pode esconder. A primeira é que estes desenvolvimentos são inseparáveis de um facto: o fortíssimo poderio militar dos EUA e de Israel não foi suficiente para impor diktats, e isso representa um importante revés na propaganda “da sua invencibilidade militar” no Médio Oriente e no Mundo. A segunda é que o ataque ao Irão foi de facto “preventivo”, mas contra a crescente cooperação e integração euro-asiática, as rotas energéticas alternativas, a autonomia de vários países face à “ordem” do G7 e, acima de tudo, contra o aprofundamento das relações de países do Médio Oriente com os BRICS, desde logo a China. O tiro saiu pela culatra. A confirmarem-se os termos do Memorando, os EUA estarão perante uma significativa derrota, vendo-se obrigados a aceitar desfechos negociais quase impensáveis há poucos meses e a aceitar várias exigências do Irão. E simultaneamente a China afirmou, em conjunto com outros países da região, um papel tão discreto como importante, no desfecho político e diplomático. Independentemente do desfecho final, um dos aspectos interessantes é que alguns países do Médio Oriente se viram obrigados pela realidade a não alinhar automaticamente em mais uma aventura dos EUA e de Israel. Isso foi visível na forma como optaram por não se envolver directamente no conflito; como apoiaram publicamente as negociações e elementos presentes no actual acordo; como criticaram as várias tentativas de Israel de boicotar o acordo; e como parecem estar a entender-se relativamente à gestão do Estreito de Ormuz. Claro que as monarquias do Golfo não mudaram da noite para o dia, e há questões por resolver, uma delas central – a questão palestiniana. Há ainda muita incerteza sobre como tudo isto vai terminar. Mas podemos dizer que o Médio Oriente mudou um pouco e com ele o Mundo e que não é o G7 que está a ditar essa mudança.

A coincidência da cimeira do G7 com estes acontecimentos tem significado. Não será nem um encontro de “líderes” seguros e confiantes, nem um “centro dinâmico” de afirmação, articulação e imposição das estratégias do imperialismo. A imagem de uma reunião de governos de “velhas potências” confrontadas com problemas e contradições internas, com o seu declínio relativo e com crescentes resistências à “ordem” que o G7 visa manter. Bem sabemos que a sua reacção é violenta e perigosa. Mas isso não retira nada ao facto de o Mundo estar a passar por mudanças que fogem ao férreo controlo imperialista.

 



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