Fernando Lemos: exposição fotográfica em Évora que olha o presente com intensidade
Fernando Lemos foi empurrado para fora do País pelo fascismo, exilando-se no Brasil
A exposição fotográfica de Fernando Lemos (Lisboa, 1926 – São Paulo, 2019), “Luz do Olhar”, está patente em Évora, no Centro de Arte e Cultura da Fundação Eugénio de Almeida, em articulação com a Fundação Cupertino de Miranda, detentora do espólio. Assinalando o centenário do nascimento do artista, reúne fotografias raras do período entre 1949 e 1952. Trata-se de um marco do surrealismo português e uma figura incontornável da arte portuguesa do século XX, cuja obra se projecta em diferentes geografias, com várias linguagens artísticas, abordando vastos campos do pensamento.
A brochura da exposição refere que «as fotografias foram realizadas num contexto de forte inquietação artística, política e existencial e não são meros registos nem exercícios formais, mas construções mentais, encenações do inconsciente e do desejo, lugares onde a luz e a sombra se tornam instrumentos de pensamento. Próximas das experiências do automatismo surrealista, mas nunca entregues ao acaso absoluto, estas imagens resultam de um equilíbrio subtil entre o impulso e o controlo, entre o inconsciente e a consciência crítica».
Depois de, na década de 1940, ter comprado uma «máquina primitiva, uma Flexaret checoslovaca», como dizia, começou «uma fúria a fotografar tudo» e a exposição, aberta ao público em Évora, integra retratos, auto-retratos e figuras próximas do seu círculo de amizade – como Romeu Correia, José Cardoso Pires, Jorge de Sena, Augusto Figueiredo e Sophia de Mello Breyner, que expressam atitudes, olhares de questionamento e de futuro e reflexões que dão uma dimensão muito actual ao nosso olhar, numa relação com fotografias de ambientes, natureza, quotidiano, ironia, angústia, humor que nos confrontam com a grande dimensão do real.
No catálogo da retrospetiva “Eu Sou Fotografia”, inaugurada no Palácio Galveias, em Lisboa, em 2011 afirmou: «Eu não sou fotógrafo. Eu sou fotografia. Eu sou um desenhista que escreve. Escrevo como quem pinta. Pinto como quem faz desenho. Desenho como... Quer dizer: Eu sou a fotografia e a fotografia é que é a marca.»
Mais um português à procura de coisa melhor era como Fernando Lemos definia o seu percurso de vida e a sua relação com a arte, ele que para além das inúmeras profissões e ocupações foi fotógrafo, poeta, artista plástico, designer gráfico e professor.
O Exílio político de Fernando Lemos no Brasil
Em Portugal, o movimento surrealista, formado nos finais dos anos 40, combateu activamente a ditadura de Salazar. Em Lisboa, integrou a primeira geração do movimento surrealista e o seu ateliê funcionava como um espaço de reunião clandestina e tertúlia intelectual para contestatários do regime salazarista. As suas posições políticas levaram a que a PIDE o perseguisse, o que o obrigou a sair do País. Impossibilitado de prosseguir a sua vida e carreira com liberdade em Portugal, viajou em 1953 para o Brasil, onde se exilou permanentemente e onde era conhecido como “o cara que Salazar mandou para o Brasil”.
Fernando Lemos teve um longo percurso como lutador antifascista e uma ligação próxima ao Partido Comunista Português. O seu papel foi fundamental no exílio no Brasil, onde colaborou activamente com a imprensa democrática. O seu vasto contributo para a cultura portuguesa e a sua inabalável coerência política e artística são aspectos que integram a nota de pesar publicada no jornal Avante! quando da sua morte, em Dezembro de 2019, em São Paulo, Brasil.
Outras exposições de Fernando Lemos têm sido apresentadas com relevo em Portugal: “O Japão de Fernando Lemos”, no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian; “Fernando Lemos Designer”, em Lisboa, organizada pelo MUDE e exposta na Cordoaria Nacional; “À Sombra da Luz” e “As Imagens que nos Olham”, organizadas em parceria com a Fundação Cupertino de Miranda que circulam frequentemente com espólio fotográfico de cariz surrealista produzido imediatamente antes de o artista se exilar no Brasil.




