- Nº 2744 (2026/07/2)

O que seria?

Opinião

Disse há dias o Presidente do Irão, Massoud Pezeshkian, que sem a capacidade defensiva que o país demonstrou face à agressão norte-americana e israelita o seu país teria acabado «arrasado como Gaza» – ou, permitam-me o acrescento, como o sul do Líbano, hoje, às mãos de Israel. Durante os ataques, iniciados ainda em Fevereiro, foram mortos mais de 3300 iranianos, entre os quais se contam as 168 meninas da escola de Minab. Os bombardeamentos norte-americanos e israelitas visaram zonas residenciais, serviços de saúde, instalações científicas, monumentos classificados como Património Mundial da Humanidade (há muitos no Irão, país com uma história e uma cultura milenares).

Até onde iriam os agressores caso não tivessem sido travados pela notável resistência demonstrada pelo Irão? A julgar pelas suas próprias declarações, até ao próprio “desaparecimento da civilização” iraniana, como chegou a ameaçar Donald Trump: o rasto de tragédia deixado pelo imperialismo e pelo sionismo noutros locais sugere que a declaração era bem mais do que mera retórica belicista inflamada… Tivessem tido norte-americanos e israelitas as mãos livres e veríamos em Teerão, seguramente, a destruição a perder de vista a que temos assistido nos últimos quase três anos em Rafah, Khan Younis e Gaza ou, mais recentemente, nos subúrbios a sul de Beirute, onde nada permanece de pé. Às meninas de Minab ter-se-iam somado certamente muitas outras crianças, ou não fosse Israel (que, lembre-se, nada faz sem o apoio político e logístico dos EUA) um Estado “especializado” nesse tipo particularmente horrendo de crime.

Um relatório recente das Nações Unidas contabiliza os menores assassinados no decurso do genocídio na Faixa de Gaza: só entre Outubro de 2023 e o mesmo mês de 2025, foram mais de 20 mil as crianças mortas – 5000 com menos de cinco anos, mais de 1000 abaixo de um ano e 420 recém-nascidos (organizações internacionais estimam em 5000 as que possam ainda estar soterradas sob os escombros, excluídas portanto desta macabra contabilidade); feridas foram 44 mil, tantas delas amputadas. E nem o cessar-fogo de Outubro do ano passado travou a chacina de bebés, crianças e adolescentes.

Mas o relatório faz mais do que contas, apresenta evidências – horríveis, chocantes – de que as crianças têm sido alvos deliberados das forças israelitas, num padrão de conduta recorrente observado em evacuações, abrigos e zonas apontadas como “seguras”. O elevado número de crianças assassinadas por atiradores de elite ou drones com um único tiro, certeiro, no peito ou na cabeça, num macabro exercício de “tiro ao alvo”, é prova cabal de premeditação – e de uma absoluta desumanidade.

O imperialismo e o sionismo são capazes de tudo e só param se forem travados.

 

Gustavo Carneiro