- Nº 2744 (2026/07/2)A guerra acompanha o capitalismo ao longo de toda a sua História. Mas é na fase imperialista do capitalismo que a guerra se tornou inseparável da expansão mundial do grande capital. As centenas de milhões de vítimas das grandes e pequenas guerras que marcam a História do capitalismo testemunham a natureza profundamente criminosa desse sistema sócioeconómico.
Hoje ressoam de novo os tambores do belicismo. O “partido da guerra” avoluma-se no seio das grandes potências imperialistas e seus acólitos. É assim nos EUA, mas também na UE, Inglaterra, Canadá, Japão, Israel, Ucrânia. Apesar das suas rivalidades, acabam por alinhar com as exigências da grande potência imperialista, os EUA. Afinam pelo diapasão da guerra – em todas as suas formas – contra os povos e países que não aceitam submeter-se à dominação imperialista. Desesperadamente, procuram travar o seu próprio declínio e a sua decadência. Espalham a guerra e o caos para tentar manter uma hegemonia política que já não corresponde à realidade económica.
O partido da guerra
A 18 de Junho reuniram-se em Bruxelas os ministros da Defesa da NATO, preparando a Cimeira deste bloco político militar de 7 e 8 de Julho na Turquia. O Secretário-Geral Rutte (o tal que elogia a severidade do “paizinho” Trump) deu o mote. Regozijou-se com «o aumento massivo nos investimentos» militares no ano 2025, com “os europeus” e Canadá a aumentarem as despesas militares em 90 mil milhões de dólares. «Trata-se dum valor estonteante, que representa um aumento de quase 20% num único ano, estando previstos ulteriores aumentos para 2026»i. Há sempre dinheiro para a guerra e para os banqueiros (que no fundo é a mesma coisa). Dinheiro que vai ser roubado aos povos. O Ministro da Guerra dos EUA, Hegseth, discursou em Bruxelas. Anunciou uma «NATO 3.0, modelada na NATO 1.0 que ganhou a Guerra Fria». Quer uma Europa que seja «uma potência militar aliada com uma América forte». Reiterou a exigência de Trump de que os países da NATO gastem 5% do seu PIB em despesas militares e reafirmou que os EUA «dão o exemplo» com um orçamento militar de um biliãoii de dólares em 2026, que subirá para 1,5 biliões em 2027. Foi cáustico com os “recalcitrantes” e elogiou os que se estão a preparar para «conflitos simultâneos em todo o mundo».
A ex-deputada alemã Sevim Dagdelen sintetiza assim: «A NATO 3.0 significa retirar a mordaça ao revanchismo alemão contra a Rússia, para defender os interesses dos EUA. E revanche de quê? Vingança pela derrota alemã às mãos da União Soviética a 8 de Maio de 1945 em Berlim» (morningstaronline.co.uk, 20.6.26). Quem ache que isto é exagero faria bem em ler com atenção o discurso do ministro dos Negócios Estrangeiros dos EUA na Conferência de Segurança de Munique, em Fevereiro deste ano. O ano de 1945, ano da derrota de Hitler, também lá consta: «Durante cinco séculos, antes do fim da Segunda Guerra Mundial, o Ocidente esteve em expansão (…). Mas em 1945, pela primeira vez desde a era de Colombo, estava a contrair-se. (…) Os grandes impérios Ocidentais tinham entrado em declínio terminal, acelerado pelas revoluções comunistas ateias e por levantamentos anticoloniais que iriam transformar o mundo e plantar a bandeira vermelha da foice e do martelo em vastas áreas do mapa nos anos que se seguiram. Neste contexto, então como hoje, muitos chegaram a pensar que a era da dominação Ocidental tinha chegado ao fim (…). Mas em conjunto, os nossos antecessores (…) recusaram essa opção (…) e é aquilo que o Presidente Trump e os Estados Unidos querem de novo fazer, convosco». Para quem anda há décadas a ouvir dizer que “o comunismo morreu”, que “a História chegou ao fim” com a vitória eterna do capitalismo neoliberal e outras patranhas semelhantes, o discurso de Rubio parecerá estranho. Se o imperialismo ganhou em toda a linha, para quê uma nova Cruzada pela “dominação Ocidental”?
O alvo principal da Cruzada pela “dominação Ocidental” não é explicitado por Rubio, mas está nas entrelinhas. Potência “não Ocidental”, que fez uma “revolução comunista” e um “levantamento anticolonial” é a China, o país que tem hoje a maior economia do planeta e que é a grande fábrica do mundo. Para o imperialismo é inaceitável que a China, resgatada pela grande Revolução Chinesa de 1949 do Século de Humilhação que as potências imperialistas lhe haviam imposto, se tenha erguido e tornado na maior potência económica do planeta. Fê-lo sem recorrer à agressão e à guerra, ao contrário do que aconteceu na ascensão das potências imperialistas. E fê-lo tendo de funcionar no contexto de regras económicas mundiais impostas por uns EUA hegemónicos desde há quase quatro décadas. Faz agora 26 anos que o General Loureiro dos Santos previa uma «guerra mundial inevitável» porque os Estados Unidos da América – então potência hegemónica incontrastada – não iriam aceitar a ascensão de novas potências que «reúnam capacidade para se opor ou desafiar os Estados Unidos», considerando a guerra «praticamente inevitável […] dentro de 15, 20 anos» (Diário de Notícias, 13.3.2000). Trump e Xi Jiping não eram ainda dirigentes políticos nos seus países. Putin tinha acabado de se tornar Presidente duma Rússia destruída e exangue após uma década de brutal restauração capitalista. Mas já então o General Loureiro dos Santos ouvia nos corredores da NATO os planos de guerra que hoje estão a ser concretizados. Não porque outros fossem agressivos, mas porque o imperialismo dos EUA não aceita “desafios” à sua hegemonia.
Para esta nova “Guerra Fria”, tal como para a anterior, estão convocadas todas as forças defensoras do capitalismo, desde a social-democracia aos fascistas (com velhas ou novas roupagens). E estes estão a corresponder, apesar de zangas públicas. O Conselho Europeu de 18-19 Junho 2026 reiterou os planos de militarização e o apoio incondicional à Ucrânia, ignorando a sua permanente glorificação dos velhos colaboradores com o nazismoiii. Entretanto, os fascistas sionistas ficam impunes apesar do genocídio sem fim dos povos do Médio Oriente. Como afirmou o PM alemão Merz, aquando do primeiro ataque de Israel ao Irão: «Este é o trabalho sujo que Israel está a fazer por todos nós» (RT, 18.6.25). Ou de forma igualmente clara nas palavras da dirigente do Partido Conservador inglês: «Israel está a combater uma guerra por procuração em prol do Reino Unido, tal como a Ucrânia o faz em prol da Europa Ocidental contra a Rússia» (Middle East Eye, 2.6.25). Que ninguém subestime o significado de frases como a de Merz: «Há ainda em parte da nossa sociedade um enraizado medo da guerra. Mas eu não o partilho» (Süddeutsche Zeitung, 27.6.26). Ou títulos como o dum jornal inglês: «Grã-Bretanha ensaia mísseis de longo alcance para ajudar a Ucrânia a bombardear Moscovo» (telegraph.co.uk, 20.6.26). O desespero do declínio pode conduzir as potências imperialistas a aventureirismos catastróficos.
A importância da resistência
Se é um erro ignorar os reais perigos de guerra que pairam sobre os trabalhadores e os povos, é igualmente errado deixar-se paralisar pelo medo, perante a farronca arrogante do “partido da guerra”. O que é decisivo é a resistência dos povos face à deriva belicista e fascizante dos centros imperialistas. Sendo certo que a agressão EUA-Israel contra o Irão não terminou, a verdade é que o ataque de 28 de Fevereiro foi derrotado, mostrando que o poder imperialista tem limites, mesmo no plano estritamente militar. Tal como aconteceu com o governo Montenegro e o seu pacote laboral em Portugal, a resistência dos povos é o factor determinante para barrar o caminho ao “partido da guerra”. A luta pela paz e a solidariedade com os povos vítimas do imperialismo é uma tarefa central do momento presente. As acções convocadas em Lisboa e no Porto para dia 8 de Julho são um momento para as afirmar nas ruas.
NOTAS
i https://www.nato.int/en/news-and-events/articles/news/2026/06/17/nato-secretary-general-previews-defence-ministers-meeting-building-a-stronger-europe-in-a-stronger-nato.
ii Milhão de milhões.
iii Após a transformação de Bandera em herói nacional, a Ucrânia agora repatriou e enterrou com honras de Estado A. Melnyk, outro «dirigente dum movimento [OUN] que apoiou e colaborou com a Alemanha Nazi na perseguição e assassinato de milhões de judeus» (www.jpost.com, 27.5.26). O Presidente da Polónia anunciou ir retirar a Zelenski a mais alta condecoração de Estado polaca após «o dirigente ucraniano atribuir a uma unidade militar o nome duma organização paramilitar ucraniana [UPA] acusada de massacrar polacos durante a II Guerra Mundial» (AP, 19.6.26).
ihttps://www.nato.int/en/news-and-events/articles/news/2026/06/17/nato-secretary-general-previews-defence-ministers-meeting-building-a-stronger-europe-in-a-stronger-nato.
iiiApós a transformação de Bandera em herói nacional, a Ucrânia agora repatriou e enterrou com honras de Estado A. Melnyk, outro «dirigente dum movimento [OUN] que apoiou e colaborou com a Alemanha Nazi na perseguição e assassinato de milhões de judeus» (www.jpost.com, 27.5.26). O Presidente da Polónia anunciou ir retirar a Zelenski a mais alta condecoração de Estado polaca após «o dirigente ucraniano atribuir a uma unidade militar o nome duma organização paramilitar ucraniana [UPA] acusada de massacrar polacos durante a II Guerra Mundial» (AP, 19.6.26).