Política de Israel condenada por dentro

Nuno Gomes dos Santos

Mais de mil artistas israelitas assinaram uma petição «recusando ser cúmplices» das atrocidades cometidas pela tropas do seu país

A condenação da política israelita genocida, expansionista e lesiva dos acordos internacionais vigentes e dos mais elementares direitos humanos é conhecida. No mundo cultural e artístico são já muitas as personalidades de nomeada a tomar posições claras sobre a matéria. Robert de Niro, Merryl Streep, Richard Gere, Javier Barden, Angelina Jolie e Susan Sarandon, falando de actores, e Bruce Springsteen, Roger Waters, Cat Stevens, Annie Lennox, Chico Buarque, Sílvio Rodriguez e os portugueses Carlos Mendes, Salvador Sobral, Pedro Abrunhosa, Samuel, Jorge Palma, Sérgio Godinho, Maria Viana, Vítor Paulo e por aí fora, pois em qualquer destes items as listas são intermináveis, já disseram, alto e bom som, de sua justiça. Dos mais conhecidos são alguns milhares. E não esqueçamos os cerca de quatro mil cineastas que se pronunciaram contra a política belicista de Israel. O Papa disse, a propósito, que “a guerra é sempre uma derrota”, e afirmou, em relação ao conflito com a Palestina, defender a solução de dois Estados…

No próprio país onde um governo de ultra-direita decreta, programa e manda executar assassinatos em massa, fazem-se ouvir importantes vozes discordantes em sintonia, por exemplo, com o movimento No Music for Genocide, que retira obras da plataforma de streaming israelita (serviços de distribuição digital que permitem o acesso a conteúdos multimédia, neste caso a música). O nome mais popular será o da cantora, compositora e orquestradora Chava Alberstein, com mais de 60 álbuns gravados em hebraico, inglês e Yddish (língua praticada por judeus Ashkenazi, como eram conhecidos na Alemanha na Idade Média, de fusão de alemão, hebraico, aramaico e elementos eslavos). As canções de Chava foram proibidas na rádio estatal israelita.

Chava Alberstein, agraciada com o grau de doutora honoris causa por três universidades, é activista dos direitos humanos e condenou abertamente a política de Israel na Palestina. Tem a seu lado, por exemplo, Gidi Gov, apresentador e cantor, e Avishai Cohen, um internacionalmente reconhecido contrabaixista e cantor de Jazz.

Outras figuras culturais que, internamente, contestam a política israelita são o escritor David Grossman, por muitos considerado um dos maiores escritores do nosso tempo, multipremiado, publicado em 30 línguas, autor de obras como “Um Cavalo Entra num Bar” (ficção) e “O Vento Amarelo” ou “O Coração Pensante” (não-ficção) e defensor da existência de dois Estados, que já usou a palavra “genocídio” para classificar a actuação das tropas israelitas em Gaza, Edgar Keret um jovem escritor cujas obras têm sido sempre best sellers, que também condena a actuação de Israel na Palestina e não só, e o coreógrafo Ohad Naharin, director da Batsheva Dance Company até há pouco e actual coreógrafo residente da companhia, uma das mais prestigiadas companhias de dança contemporânea do Mundo essencialmente por ter como coreógrafo Naharin.

Estes (e muitos outros mais) intelectuais israelitas apelam ao «fim da guerra contra os palestinianos» e protestam pela «morte de crianças e civis, a fome e a destruição insensata». Mais de mil artistas assinaram uma petição «recusando ser cúmplices» das atrocidades cometidas pela tropas do seu país. O governo vai penalizando aqui, sabotando ali, mas finge não ligar muito ao caso. No entanto, além fronteiras e um pouco por toda a parte, a contestação e a condenação dos crimes contra a Humanidade cometidos por Israel vai subindo substancialmente de tom e, “dentro de casa”, levantam-se já muitas vozes divergentes e de repúdio pela morte e destruição que as forças que mandam no país andam a espalhar por meio mundo.

Não é o povo israelita que assusta, como muito bem se sabe. São os fascistas mandantes no país que viram costas a qualquer coisa que se pareça com humanidade e respeito, conceitos que riscaram da sua ignóbil prática de vida, esquecendo um passado historicamente recente que fez ao povo judeu o que os donos de Israel agora praticam, matando civis indefesos, crianças inocentes, mulheres e velhos desprotegidos, ignorando as vozes, que se erguem em todo o mundo e no seu próprio país, que os tratam pelos nomes que merecem: assassinos, genocidas, cruéis insensatos e, para ficarmos mais perto do que por aquelas bandas se terá passado outrora, vendilhões do templo.

 



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