Colonizados mentais
As cerimónias dos 250 anos da independência dos EUA, na semana passada, dispensam todas as metáforas, alegorias e parábolas. Reflectem a saúde mental do império como o espelho de água do Memorial Lincoln: putrefacto e cheio de lodo. Na sua milésima exibição de húbris imperial, Trump anunciou a fundação do país como «o maior feito da história humana», o que prova que «o destino dos EUA foi escrito por Deus» o que, por seu turno, é a única explicação possível para serem «a nação mais excepcional que já existiu» que, por isso, «pode fazer tudo o que quiser no mundo», como aliás «mostrou um bocadinho na Venezuela e no Irão».
De resto, Trump declarou o comunismo como «a maior ameaça de sempre aos EUA» e qualificou «uma ameaça mortal, maior que as duas guerras mundiais, que Pearl Harbor ou que o 11 de Setembro», pelo que prometeu «exilar todos os comunistas» e «cortar o cancro» porque, ameaçou, «podes ser leal a Karl Marx ou leal à América; podes ser comunista ou ser um patriota. Não podes ser os dois». Para quem passou as últimas três décadas a proclamar o “Fim da História” deve ter sido confuso ouvir Trump falar do «ressurgimento da ameaça comunista».
Outra frase de Trump passou quase desapercebida. A certo momento, gabou-se de que «por esse mundo fora, toda a gente quer ser como nós, mas não conseguem». De facto, a hegemonia cultural dos EUA convenceu milhões de pessoas, também em Portugal, a querer ser como “eles”: consumindo quase exclusivamente a sua cultura ou a imitação barata da sua cultura; adoptando as suas referências como se fossem nossas; a seguir com uma atenção inexplicável os seus famosos e as suas polémicas e até a substituir acriticamente as nossas palavras e expressões pelas da sua língua. Uma Internet totalmente manietada por algoritmos dirigidos pelo capital dos EUA alimenta a ilusão de que essa nova cultura é universal, mas na verdade ela é só norte-americana.
A colonização mental de que se gaba Trump não é apenas formal: quando por cá se importa as suas categorias políticas e se as aceita como materiais de construção de ideias; quando há quem se resigne a perseguir e imitar, com provincianismo mal disfarçado, os temas, a agenda e as causas que a academia, a Internet e a comunicação social norte-americana inventa está-se a aceitar o estatuto de colonizados mentais.
E o mais triste é que, como Trump mofa, por mais que se tente ser como eles, nunca se conseguirá. Num momento de explicitíssima decadência cultural, moral e civilizacional dos EUA, é urgente que se tente deixar de querer ser decadentes como eles. E há mundo para além dos EUA.
Só falta querer conhecer os pensadores, a música, o cinema, as línguas, enfim, a incrível riqueza cultural do vasto continente africano, da desconhecida América Latina, do magnífico Irão, da bela Rússia, da imensa Ásia e, já agora, da nossa própria terra. Trump nem sonha como ficaríamos a ganhar.




