- Nº 2745 (2026/07/9)
A selecção da República Democrática do Congo despediu-se do Mundial de futebol há uma semana, derrotada pela Inglaterra nos 16 avos de final (2-1) depois de ter estado a vencer. Se a presença no mais importante torneio de selecções do mundo, sendo rara, não foi inédita (ainda enquanto Zaire, participou no Mundial de 1974, na Alemanha), a qualificação para a fase a eliminar foi, após uma prestação positiva na fase de grupos, em que empatou com Portugal, perdeu com a Colômbia e venceu o Uzbequistão.
Se para os amantes da modalidade ficarão na memória a ousadia dos jogadores e a alegria dos seus adeptos, outros lembrarão as provações a que equipas, técnicos, apoiantes e até árbitros africanos e asiáticos foram sujeitos pelos serviços de imigração norte-americanos – muitos tiveram vistos negados ou foram repatriados. A equipa do Irão, por exemplo, foi forçada a abandonar o território norte-americano imediatamente a seguir aos jogos, sem tempo de descanso ou recuperação. «Queriam que perdêssemos», denunciou o capitão, Mehdi Taremi.
Mas voltemos ao Congo e ao seu mais famoso adepto, Michel Kuka Mboladinga, a estátua humana de Patrice Lumumba, conhecido por permanecer imóvel durante longos períodos nos estádios, imitando o monumento ao líder congolês erigido no centro da capital, Kinshasa. Homem de poucas palavras, Mboladinga reconhece em Lumumba um símbolo de dignidade, liberdade e soberania nacional.
Quem foi afinal Patrice Lumumba e por que importa hoje a sua memória? Primeiro chefe de governo do Congo após a sua independência, em 1960, Lumumba denunciou a carnificina perpetrada durante décadas pelo colonialismo belga: os assassinatos em massa, os trabalhos forçados (tantas vezes até à morte por exaustão), os castigos físicos, a amputação de membros, o roubo de recursos. E defendeu de forma corajosa e consequente um rumo de soberania e emancipação para o seu país e o seu povo, rejeitando qualquer tipo de tutela, colonial ou imperialista. Pagou cara a audácia: foi assassinado em 1961 por mercenários congoleses e militares belgas, a mando do imperialismo norte-americano. O seu corpo foi desmembrado e dissolvido em ácido.
Privado de um líder patriótico e de um projecto soberano, a República Democrática do Congo (com as suas várias designações) tornou-se presa fácil para governos estrangeiros e multinacionais, que alimentaram e agudizaram divisões e conflitos internos para melhor se apoderarem dos valiosos recursos minerais e naturais do país. Hoje como ontem, a escolha que está colocada aos congoleses, como a muitos outros povos, é entre um projecto de desenvolvimento soberano ou a submissão ao imperialismo; o progresso social ou o subdesenvolvimento; a utilização dos recursos para benefício do povo ou o saque.
Sim, o legado de Lumumba importa. E ter presente quem o matou também.