- Nº 2745 (2026/07/9)Paulo Raimundo voltou no dia 1 ao Centro de Saúde do Olival, no Cacém (Sintra), três meses depois de ali ter estado, para contactar com as dezenas de utentes que tentavam marcar uma consulta. Se o problema se mantiver, promete regressar em Outubro.
Janeiro, Abril, Julho, Outubro: é no primeiro dia útil destes meses que são marcadas as consultas no Centro de Saúde do Cacém para o trimestre seguinte. Ou pelo menos é isso que pretendem centenas de pessoas quatro vezes ao ano: com mais de 90 por cento dos utentes daquela unidade sem médico de família atribuído e com as vagas limitadas a 150 consultas, são muitos os que não conseguem a marcação desejada – e voltam três meses passados. Ou talvez seis. Ou…
Alguns daqueles com quem o Secretário-Geral do PCP falou há uma semana tinham ali estado com ele no início de Abril: uns para tentar marcar uma nova consulta, outros insistindo na que tentaram sem êxito agendar há três meses. É sempre assim, a cada trimestre. Foi na sequência dessa visita de Abril, em que se confrontou com aquela situação tão violenta quanto absurda, que Paulo Raimundo levou o problema à Assembleia da República, desafiando o primeiro-ministro a comparecer naquele local a 1 de Julho: «venha contactar com todos os utentes que ali voltam de três em três meses para tentar aceder a uma senha para uma consulta.» O dirigente comunista compareceu, Luís Montenegro não!
O desafio foi impresso em cartaz, anunciando a presença ali de Paulo Raimundo, e colocado nas imediações do Centro de Saúde.
Tratamento humilhante
Quando Paulo Raimundo chegou ao Centro de Saúde do Olival, acompanhado por camaradas do concelho de Sintra, pouco passava das 7 da manhã. A fila, que dava a volta ao edifício, era heterogénea: de idosos a mulheres grávidas, de doentes crónicos a crianças. O primeiro da fila estava ali desde as três da manhã, e por ali ficou toda a noite, para que não voltasse para casa sem consulta marcada, como da última vez. Outros juntaram-se pouco depois: às 4, às 5, às 6. Alguns por ali ficaram todo o tempo, outros foram-se revezando com algum familiar ao longo da noite: «a consulta é para o meu marido, que foi agora a casa. Agora, fico eu aqui por um bocado», contou uma senhora – a sexta ou sétima da longa fila.
À sua frente, um homem cerrava os olhos para conseguir perceber o que se passava: as cataratas de que padece, contou, impedem-no de trabalhar e estava ali para que lhe renovassem a baixa, enquanto aguarda pela necessária operação. Queixa-se da desorganização dos serviços, mas reconhece que o problema central é outro: a falta de médicos de família para todos os utentes. À mesma conclusão foram chegando os outros utentes que esperavam na longa fila. Houvesse médico para todos e não era preciso sujeitarem-se a esta provação de três em três meses.
Se eram vários os que se cobriam com mantas trazidas de casa – pois noite é noite e Sintra é Sintra… – não eram menos os bancos dobráveis de campismo para descansar as pernas. Se era este o panorama na passada semana, imagine-se em Outubro ou em Janeiro, com frio e provavelmente também chuva.
Denúncia e luta
No folheto que distribuiu aos utentes, o PCP lembra que no Cacém «grande parte da população tem um acesso muito deficitário aos cuidados de saúde primários»: em Dezembro de 2025, dos 16.457 utentes 15.333 não tinham médico de família – ou seja, 93,2 por cento. À denúncia segue-se uma proposta e um caminho – o da luta, unindo profissionais e utentes: por médicos e enfermeiros de família para todos; por medidas que fixem profissionais no Serviço Nacional de Saúde; por condições dignas de acesso ao Centro de Saúde, de forma a que os utentes não estejam horas ao frio e à chuva; pela possibilidade de marcar consultas quando necessário e não apenas de três em três meses.
«Este é o País real e não o das ilusões do Governo»
A presença de Paulo Raimundo naquele local, como o próprio confirmou, teve também o objectivo de dar expressão pública às condições vergonhosas a que são sujeitos os utentes daquele Centro de Saúde. Aos profissionais da comunicação social presentes, deixou o apelo para que mostrem a realidade daquelas pessoas: «Isto é o País real, não é o País da propaganda e das ilusões do Governo», denunciou.
Sobre a “falta de comparência” do primeiro-ministro naquele local, Paulo Raimundo salientou que cada um tem as suas prioridades, segundo as quais constrói a sua agenda: Luís Montenegro deixou clara a sua opção quando arranjou tempo para inaugurar um hospital privado em Leiria, mas não para se deslocar ao Cacém, mesmo às portas de Lisboa. Ainda assim, o Secretário-Geral do PCP renovou o desafio feito em Abril e convidou o chefe do Governo para se deslocar àquele local no dia 1 de Outubro. Paulo Raimundo, é certo, lá estará!
Denunciando que já hoje mais de metade do orçamento do SNS vai parar aos grupos privados, Paulo Raimundo defendeu que o que se impõe é a contratação e fixação de profissionais, a melhoria das condições de trabalho, o investimento nas unidades públicas. E não aquilo que tem sido feito, o estrangulamento e desmantelamento do SNS para abrir caminho para o negócio privado.