- Nº 2745 (2026/07/9)

Ingerência, protagonismos… e futebol

PCP

Uma das notícias do dia da última segunda-feira foram os insistentes telefonemas do Presidente dos EUA ao homólogo da FIFA que resultaram na suspensão do castigo a um jogador que tinha visto um cartão vermelho no jogo anterior do Campeonato do Mundo. Este foi mais um episódio da longa lista de ingerência política sobre competições desportivas, mas também da profunda hipocrisia com que os actores mediáticos tratam matérias envolvendo os líderes das principais potências mundiais. O contraste entre o rasgar de vestes com esta manifestação de corrupção ao mais alto nível e outros casos em que chamadas telefónicas de Donald Trump terraplanaram outras regras, tantas vezes do direito internacional e com consequências dramáticas para a vida e morte, e facilitando o esbulho dos recursos de outros povos, é gritante.

Mas o Mundial de futebol evidenciou ainda outras opções crónicas no espaço mediático, que traduzem a natureza e alinhamento da comunicação social dominante com os interesses dos poderosos. Um dos exemplos é a escolha de dirigentes políticos para comentar jogos de futebol, invariavelmente alinhados à direita, como num painel da SIC Notícias na tarde do dia do jogo entre Portugal e Espanha, com três militantes e antigos eleitos do PSD e do CDS: José Dias Ferreira, Fernando Seara e Diogo Feio. A estes pode-se juntar outros casos, o que, aliás, não é exclusivo desta competição de 2026. Podemos lembrar vários casos de eleitos e dirigentes partidários da direita com presença mediática recorrente por via das suas afinidades clubísticas, ou a utilização desta como rampa de lançamento para projectos políticos, como sucedeu com Rui Moreira, que beneficiou da visibilidade do seu comentário futebolístico para alcançar a presidência da Câmara Municipal do Porto, ou de André Ventura, com o conhecido percurso formativo nos debates sobre as incidências das jornadas de futebol.

É certo que, sem mais elementos, qualquer tese que aponte para um alinhamento entre os objectivos de decisores mediáticos e as ambições políticas daqueles a quem é dado espaço é apenas especulativa. Mas isto revela, pelo menos, uma realidade que ultrapassa a esfera desportiva na escolha de quem tem acesso ao espaço mediático: o profundo elitismo presente nessas opções. São escolhidos não pelo seu passado de prática da modalidade, pelo seu profundo conhecimento técnico ou táctico do jogo, mas pelo seu percurso político e partidário.

Estes espaços de debate ou comentário tornam-se, assim, mais uma plataforma de protagonismo público para certas figuras, com uma assinalável uniformidade política e ideológica, que ajudam a legitimar as escolhas de quem participa noutros espaços mediáticos onde se discutem matérias de outra natureza: depois do bombardeamento de dirigentes da direita para discutir as incidências de um jogo de futebol, passa com menos estranheza os debates sobre os temas que marcam a vida política nacional exclusivamente inclinados à direita.