Na caça às bruxas arde a paz e a democracia
No dia 16, o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, juntou representantes de 67 governos do mundo, incluindo a maioria dos países europeus (como Portugal, representado pela sua embaixada em Washington), para uma “Conferência Ministerial sobre o Ressurgimento do Terrorismo Político”. Rubio prometeu «uma ofensiva sem precedentes», «nacional e global», contra uma suposta «esquerda radical» que definiu como «antifascista» e «anticapitalista».
A arquitectura legal da cruzada agora anunciada tem quase um ano e alicerça-se no NSPM-7, um memorando presidencial que dispensa autorização do congresso (e cujo conteúdo é, em larga parte, secreto) e prevê «acção preventiva contra o dito terrorismo de esquerda». Sobre essas fundações enterradas em secretismo existe agora todo um edifício, com meios e recursos quase infinitos, para reprimir a denominda “esquerda radical”, não só nos EUA, mas em todo o mundo. Em poucos dias, o FBI criou um “Centro de Missão NSPM-7” para investigar as organizações de esquerda nos EUA, o Serviço de Receita Interna anunciou que passará a pente-fino as contas de todas as associações de esquerda e os governos presentes ter-se-ão disponibilizado a combater o “terrorismo de esquerda” em cada um dos seus países.
Essencialmente, os EUA pretendem poder visar qualquer pessoa no mundo apenas por ser, aos olhos de Trump e Rubio, um dito «radical de esquerda», com base num «indicador de potencial de que vai cometer terrorismo doméstico». Ao abrigo do memorando, os EUA começaram a compilar listas nacionais e internacionais de ditos “indivíduos subversivos” a partir de critérios tão ambíguos como: possuir «reivindicações de classe»; ter «sentimentos antitecnológicos»; defender «ideias anticapitalistas», demonstrar «hostilidade aos valores tradicionais americanos sobre família, religião e moralidade» ou simplesmente ser suspeito de «anti-americanismo». Esta nova cruzada de Trump, assente na amálgama entre terrorismo e a tal “esquerda radical”, num autêntico ressurgimento McCartista, tem duas importantíssimas explicações circunstanciais.
Em primeiro lugar, serve para construir uma narrativa que sirva de pretexto para uma agressão a Cuba que, na segunda-feira, acusou de estar por detrás de um rebuscado plano para «destruir a civilização ocidental». Num libelo de mais de cem páginas, ilustrativamente intitulado “Cuba, capital do comunismo do século XXI”, a Casa Branca acusa Cuba de praticamente tudo, sem provar absolutamente nada. De eixo onde «converge Pequim, Moscovo e Teerão» a plataforma de exportação da «revolução marxista», até fomentar uma «revolução racial» nos EUA, Cuba seria, pasme-se, a explicação de tudo o que está mal nos EUA.
Por outro lado, tudo isto serve para preparar os EUA para um eventual golpe de Estado que, em Novembro, permita a Trump não reconhecer o resultado das eleições intercalares ou simplesmente adiá-las. Num discurso à nação, na semana passada, Trump disse que é impossível garantir a integridade das próximas eleições e acusou a China de ter roubado mais de 230 milhões de ficheiros eleitorais que comprometem irremediavelmente quaisquer resultados. A espiral anticomunista é, como sempre foi, a antecâmara da guerra e da ditadura.




