- Nº 2748 (2026/07/30)
Neste mês de Julho assinalam-se os 90 anos do início do que foi o período mais traumático, brutal e criminoso, sofrido pelos povos de Espanha no século XX: a Guerra Civil (17/18 de Julho de 1936/1 de Abril de 1939). Os quase três anos de guerra entre os defensores da II República, legitimamente eleita e os fascistas da Falange, pautaram-se por uma herança de horrores: mais de meio milhão de mortos em combate, ou assassinatos, entre os quais o do poeta e dramaturgo Garcia Lorca; mais de 250 mil presos políticos e dezenas de milhares de exilados. No plano cultural, o registo é demolidor: cerca de 60% dos professores foram executados ou presos; quase todos os intelectuais da geração de 1927 (a “Era de Prata” da Cultura espanhola, de 1898/1936), foi destruída; os mais importantes cientistas e artistas morreram ou acabaram no exílio, como Buñuel, António Machado, Alberti, Picasso ou Américo Castro. O país de Franco impunha aos vencidos o obscurantismo clerical, a “apagada e vil tristeza” que tolhia os povos ibéricos, a miséria e a vil submissão, ao mesmo tempo que destruía as bases da economia.
É desta “apagada e vil tristeza”, dos anos da fome e dos poderes que, por terras lusas, tudo submeteram aos seus desígnios e daqueles que, apesar da opressão, da violência e dos algozes, resistiram que trata A Arte de Roubar Fruta, um regresso feliz do autor aos universos telúricos de Diário de Link e Geografia do Medo, embora, nesse romance notável sobre os trilhos do medo que é Jacarandá, Mangas referisse as incursões, pela raia, de franjas de antifranquistas, vingando-se daqueles que, do lado de cá da fronteira, haviam apoiado, com dinheiro ou armas, o generalizado terror da corja franquista.
Tal como em Jacarandá, que parte de um caso verídico, o assassinato de um importante proprietário do Porto, também A Arte de Roubar Fruta, tem como pretexto ficcional, o homicídio de um abastado lavrador de Vilar de Piscos, “abatido em casa por elementos das guerrilhas antifranquistas”.
O texto divide-se em duas narrativas paralelas, uma, passada em 1946 e envolvendo operacionais da PIDE e as forças reaccionárias locais, incluindo o pároco da igreja, em Vilar de Pisco e Cambedo, a segunda narrativa em S. Bento das Gavieiras, durante o «Verão Quente» de 1975.
O título, A Arte de Roubar Fruta, remete-nos para A Arte de Furtar, mas neste caso para a capacidade e engenho que um grupo de jovens de S. Bento da Gavieira, que vão apurando os seus processos de saltar os vigiados muros do quintal do Mirinho e locupletarem-se com cerejas e dióspiros, como acto de rebeldia contra a soberba. Os capítulos são curtos e os seus títulos limitam-se a uma simples palavra, mas plena de simbologia: Noite, Pomar, Raiva, Grito, Vinha, Alegria, Côngrua, Dia e tantos mais. Das personagens, relevo, nos capítulos de Vilar de Piscos, a figura sinistra do pároco Benedito Valverde, delator e cúmplice dos PIDES e, do lado oposto, Zulmira, a corajosa cozinheira do padre e Bernardino Garcia, capitão do exército leal ao Governo da Frente Popular. Nos capítulos de Vilar de Piscos, as personagens de Raimundo, Leonardo Torres e Armindo Pega, o homem das palavras estranhas e a figura picaresca do criado Justiniano, que andava aterrorizando desde que lhe disseram que os comunistas lhe queriam comer a orelha esquerda.
O núcleo de fogo destas narrativas exemplares, situa-se na hábil mestria como o autor recolhe uma série de episódios históricos e os reconstrói através de um conjunto de traços ontológicos, no sentido heideggeriano, que definem com rigor cada personagem (ora com simpatia, ora com desprezo) e cada lugar, para além da capacidade descritiva e da língua de Francisco Duarte Mangas, que superiormente une os espaços que todos habitamos, como diria Jorge de Sena, e as configurações do humano que atravessam o discurso, pontuado de sadio humor e, noutras passagens, com sarcasmo e revolta, quando denuncia as atrocidades cometidas pelos sequazes dos dois ditadores ibéricos. Mas é, também ou, sobretudo, um livro que exalta a coragem dos que, no cerco de todas as afrontas, do terror, dos crimes de ódio e das sevícias, conseguiram erguer-se e resistir ao medo e à barbárie.
No último capítulo, Dia, o agora cónego Benedito, profere uma homilia «em que alerta para os descaminhos da pátria, amputada das colónias, ameaçada pela criminosa horda comunista», discurso semelhante aos proferidos pela sinistra personagem que foi o cónego Mello, quando no norte do país as sedes dos partidos de esquerda, sobretudo as do PCP, ardiam e se contavam vários crimes de sangue perpetrados pelos fascistas do ELP e do MDLP. À homilia, lida nas páginas de O Comércio do Porto, desabafará Leonardo Torres, «Nós, os da arte de roubar fruta, juntamo-nos ao velho camarada. Nem que eu seja cão!, diz o Jaime, ninguém nos roubará a cerejeira.»
Vivemos num tempo em que o Governo e o patronato andam ávidos de nos ir às cerejas.
A Arte de Roubar Fruta, de Francisco Duarte Mangas. EdiçãoTeodolito/2026