- Nº 2748 (2026/07/30)

As obras de arte sem fronteiras de Bartolomeu Cid dos Santos patentes em Cascais

Argumentos

A Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, está a organizar um ciclo de exposições temporárias integradas nas comemorações de Cascais – Capital Europeia da Democracia 2026. São exposições centradas em artistas que com Paula Rego mantiveram laços de proximidade por amizade, trânsitos intelectuais e artísticos.

O primeiro desses artistas é Bartolomeu Cid dos Santos, uma amizade construída nos anos 50, quando ambos frequentavam a Slade School of Fine Art de Londres, onde Bartolomeu irá fazer um longo percurso de professor, um «professor extraordinário», como o classificaria Paula Rego. Foi de facto um professor extraordinário, marcante para muitas gerações de artistas e nas sete partidas do mundo para onde foi solicitado a efectuar cursos de gravura nas suas diversas técnicas e suportes. O seu saber, a sua criatividade, a sua cultura eram universalmente reconhecidas e, ainda hoje, as oficinas de gravura das principais academias em todo o mundo seguem o padrão por ele instalado na Slade School.

A exposição, intitulada “Criar em Liberdade”, centra-se em quatro núcleos – desde as primeiras gravuras onde a decadência, a degradação dos poderes dominantes é plasmada em magníficas imagens do aviltamento, da impudícia de “Deus, Pátria, Família”, os pilares das direitas mais sonsas às mais radicais e que um comunista como era Bartolomeu Cid dos Santos, o que sem surpresa nunca é referido, poderia deixar de ser frontalmente desencoberto.

O último núcleo expressa a fúria humanista e democrática de Bartolomeu contra a invasão do Iraque, justificada por reiteradas mentiras, em que o artista recorre a uma linguagem próxima da pop art, e à rataria que despe a platitude do assexuado e amante de fast-food Mickey Mouse mostrando o ser maléfico que salta da barca de Nosferatu para com violência destruir, invadir, ser chefe a cumprir ordens de chapéu colonial a enterrar em terra conquistada um padrão encimado por uma águia sem cabeça, enquanto um helicóptero sai dos ecrãs televisivos para nos ameaçar como um vírus mortal.

Escreveu Montaigne que a habituação entorpece o juízo, mas Bartolomeu não o permite: recorrendo mas transformando muitas das imagens vulgarizadas pela comunicação social, fá-las adquirir a força de nestes dois núcleos, nos esmurrarem o quotidiano.

Nos outros dois núcleos cruzamo-nos com as relações e os diálogos íntimos de Bartolomeu com escritores e de outras artes com quem, homem de vasta e actualizada cultura, sempre manteve. São bem conhecidas as suas gravuras sobre Fernando Pessoa e seus heterónimos, o que o faz mergulhar ainda mais fundo nas inquietações, nas aventuras do mundo, do mundo colectivo e do mundo individual.

Aqui o mais relevante são as suas relações com Jorge Luís Borges, escritor que lhe foi sinalizado por Paula Rego, que deu origem à série de labirintos. Labirintos que são em simultâneo e paralelo o lugar das angústias de encontrar a porta de saída, mas também refúgio que defendem das ameaças exteriores.

Em tempo de vacuidades e vulgaridades, Bartolomeu Cid dos Santos não participa na nebulosa decadência artística em que se tropeça por todo o lado e em todos os lados. As obras de arte que produziu não têm fronteiras, são cosmopolitas, defendem a liberdade de espírito, o poder criador frente à tirania do gosto massificado, são parceiras das inovações das ciências e das técnicas, estão sempre por inteiro ao lado dos valores democráticos, humanistas, revolucionários.

“Criar em Liberdade”, exposição de gravuras de Bartolomeu Cid dos Santos até dia 18 de Outubro na Casa das Histórias de Paula Rego, Cascais.

 

Manuel Augusto Araújo