- Nº 2748 (2026/07/30)
A consigna “Luta, caminho da Vitória. Salários, pensões, serviços públicos. Novo rumo para Portugal” que o Partido lançou no seguimento da derrota do pacote laboral constitui uma expressão concreta, que a vida demonstrou, das tarefas e objectivos que se colocam aos trabalhadores e ao povo para romper com décadas de política de direita. Mais do que uma proclamação, o que se retira desta expressão é o ensinamento resultante de um prolongado processo de luta que culminou com uma das mais importantes vitórias dos trabalhadores dos últimos anos.
Um elemento de enorme significado que contrariou o fatalismo que se apoderou de alguns sectores no seguimento dos resultados eleitorais de Maio de 2025 e demonstrou que, a força da luta dos trabalhadores quando posta em marcha, se pode sobrepor a uma determinada correlação de forças no plano institucional. Recorde-se que o PCP saiu dessas eleições com três deputados, e um mês depois já o Governo, em conluio com as confederações patronais, apresentava a tal “declaração de guerra” a quem trabalha. Mas essa circunstância – a de um resultado eleitoral aquém do necessário – não impediu o PCP de apontar o caminho da luta e de se empenhar, como mais nenhuma outra força política o fez, na sua concretização. A vitória alcançada é também uma vitória do PCP e do caminho que este propõe para a construção da alternativa que o País precisa.
O Governo, as forças reaccionárias e o grande capital encaixaram a derrota mas não desistiram dos seus objectivos. O seu programa constitui não apenas uma ameaça às condições de vida do povo mas ao próprio regime democrático e à nossa soberania. A ruptura com a política de direita é, desde há muito, um objectivo central que está colocado ao povo português. A sua concretização é no entanto um percurso exigente, que reclama determinação, coragem e acerto político que não se confunde com atentismos ou a interminável discussão sobre a “esquerda” desligada da vida concreta dos trabalhadores, da nossa história, dos elementos de ruptura que fazem a fronteira entre os que não aspiram a mais do que gerir a situação e os que estão empenhados em transformar a realidade.
Ao contrário do PCP, há os que fingindo ignorar a brutal luta de classes que se trava em Portugal e no mundo ficam paralisados e desorientados. Nesse mundo que imaginam, a União Europeia da troica seria um farol da democracia. A NATO, de que o Portugal de Salazar foi fundador, estará a levar a paz à Ucrânia. O imperialismo norte-americano teria começado com Trump e os países que contra ele lutam e resistem são, como dizem, “regimes totalitários”. Esquecem a dimensão reaccionária da política do Governo e a única ameaça que vêem, é a da demagogia fascizante de Ventura. Aceitam por isso o mal menor de uma política que não rompe antes perpetua injustiças e que alimenta as forças reaccionárias. Falam de grandes reflexões à esquerda, de novas roupagens, linguagens e até partidos, enquanto a luta, em muitos casos, lhes passa ao lado. Sabemos que é preciso aprender com a vida, que há que ter novas respostas a novos desenvolvimentos. Sabemos que as forças que temos – e que estão para lá do PCP – são menos do que as que precisávamos. Mas os comunistas não ficam à espera de um milagre. O pacote laboral foi derrotado não pelo cálculo mas pela determinação, pela luta organizada, pelo esclarecimento dos que produzem a riqueza. Se ficássemos agarrados ao mal menor, à teoria das inevitabilidades, ou à actual composição da AR, o pacote laboral já estaria hoje a infernizar a vida de quem trabalha.
A ruptura com a actual política não está ao virar da esquina. E a percepção por parte de amplas massas que é possível derrotar os objectivos do grande capital – o que pressupõe a derrota das forças políticas que a ele se submetem – e abrir caminho a um novo rumo para Portugal está ainda distante. Mas a aceleração desse processo não passa pela diluição do PCP mas pelo seu reforço. Passa pela intensificação da luta de massas e pelo reforço das organizações dos trabalhadores e de outras classes e camadas antimonopolistas. Requer um amplo trabalho junto de democratas e patriotas no sentido da convergência. E pressupõe uma afirmação clara do sentido político da mudança que o País precisa centrada nos direitos dos trabalhadores, na valorização dos serviços públicos, no controlo público dos sectores estratégicos, na combate às imposições da UE e do imperialismo em geral, na defesa da soberania, na rejeição da guerra e da corrida aos armamentos, na afirmação dos valores de Abril inscritos na Constituição.