- Nº 2748 (2026/07/30)

O perigo fascista

Opinião

O imperialismo “trás a guerra como a nuvem trás a tempestade”. Fascismo e guerra caminham de mãos dadas, e a deriva antidemocrática e militarista intrínseca ao neoliberalismo, se não for derrotada, tem o fascismo como desenvolvimento lógico. O revisionismo histórico, a promoção do racismo, do ódio e da violência; a propaganda da inevitabilidade da guerra para “defesa dos valores e do modo de vida do Ocidente”, a construção acelerada de “economias de guerra”, aí estão a apontar para uma brutal intensificação da exploração e da opressão dos trabalhadores e dos povos que salve o capitalismo da crise estrutural em que se debate. É muito significativo que o fantasma do “comunismo” esteja a ser agitado pela administração norte-americana não só para justificar a sua cruzada reaccionária no plano interno (onde até os opositores “democratas” são taxados de comunistas, lembrando a “caça às bruxas” dos tempos do “macartismo”) mas também para justificar a agressãoa países soberanos e a promoção e apoio às forças mais reaccionárias e fascizantes por esse mundo fora. Como no caso da América Latina (desde El Salvador à Argentina passando pela Venezuela e Cuba) ou na Europa onde os EUA têm desenvolvido descaradas acções de promoção e apoio às forças mais reaccionárias.

É neste quadro que a reunião do passado dia 16 de Julho em Washington sob a bandeira do “combate ao terrorismointernacional de extrema-esquerda” não deve ser subestimada. Apesar de entre os representantes de 67 países se encontraro embaixador de Portugal nos EUA, ela esteve praticamente ausente nos comentários dos ditos “especialistas” em relações internacionais que enxameiam o espaço público. Mas o tema da reunião, as gravíssimas afirmações nela produzidas por Marco Rubio (nada mais nada menos que o Secretário de Estado da maior potência capitalista do mundo) e a proclamação de “liderança” pelos EUA do combate à “ameaça comunista”representam um perigoso passo adiante das forças mais negras da reacção norte-americana na promoção do fascismo a partir do próprio poder.

Haverá quem assobie para o lado ou atribua tudo isto às “maluqueiras” e à megalomania de Trump, a um acidente de percurso da “potência imprescindível” e “farol do mundo livre” que próximas eleições corrigirão. Mas é uma evidência que a questão é bem mais séria, tem raízes na própria essência reaccionária e criminosa do imperialismo. Atente-se na apresentação de Israel (genocídio do povo palestiniano) e da Ucrânia (com a aberta reabilitação de nazis ao ponto de provocar o protesto da Polónia) como postos avançados da “democracia” e da “civilização ocidental”. Atente-se no poder das chamadas Big Tech” norte-americanas e no activismo fascizante de Elon Musk e outros bilionários seus proprietários. Atente-se na consideração da República Popular da China com a sua orientação socialista como “ameaça existencial” aos EUA. Atente-se num infame relatório do Departamento de Estado de 20 de Julho significativamente intitulado “Cuba: a capital do comunismo do século XXI” que o Governo cubano prontamente desmascarou como propaganda visando dar cobertura a uma agressão militar à Ilha da Liberdade.

Albano Nunes