- Nº 2748 (2026/07/30)

A guerra de Espanha começou há 90 anos

Temas

A República foi proclamada em Espanha duas vezes: a primeira, em 1873, não chegou a durar dois anos; a segunda, em 1931, resistiu oito anos, os três últimos vividos numa cruenta Guerra Civil, vencida pelos generais sublevados, com o decisivo apoio das ditaduras fascistas de Hitler, Mussolini e Salazar. Nas duas vezes, a República não nasceu por obra de um golpe militar, mas sim em consequência da abdicação dos reis em exercício, incapazes de resolver as crises políticas em que a Espanha estava mergulhada.

Em Abril de 1931, os partidos republicanos venceram as eleições municipais e o Rei Afonso XIII, enfraquecido pela queda de sucessivos governos, incluindo o da ditadura de Primo de Rivera, partiu para o exílio.

O Trono – um rei desacreditado; a Espada – um Exército confinado ao espaço metropolitano e ao norte de Marrocos, mas ainda com 800 Generais; o Altar – uma Igreja, dominada pelo conservadorismo, com 31 mil padres e 80 mil religiosos. Trono, Espada e Altar constituíam uma cidadela de poderes, que entre si se amparavam num mundo de pobreza, injustiça, exploração, onde crescia um operariado mais organizado e consciente da sua força, e despontava uma pequena burguesia urbana, dinâmica na vida económica e ávida de afirmação.

A vulgata histórica sobre o novo regime detém-se na agitação permanente, na revolta armada dos mineiros das Astúrias, em cuja repressão já se havia distinguido o General Franco, nos choques autonomistas da Catalunha, nas desordens anticlericais, nos golpes militares que teve de enfrentar. Mas, no dealbar da República, como lembra Madeleine Chapsal, a Espanha tinha 24 milhões de habitantes, metade dos quais analfabetos, um terço, oito milhões, vivia na pobreza, o salário médio dos trabalhadores era de uma a três pesetas por dia, um quilo de pão custava uma peseta. Havia dois milhões de camponeses sem terra, 20 mil proprietários eram donos de metade da Espanha. Liberdade, participação e justiça eram aspirações partilhadas pela grande maioria da população.

Avanços extraordinários

A República introduziu profundas alterações políticas, desde logo a separação da Igreja e o Estado.

A nova Constituição definia a Espanha como uma «República democrática de trabalhadores de todas as classes, organizada num regime de liberdade e justiça», renunciava à guerra como instrumento da política nacional, declarava a igualdade de todos os cidadãos e reconhecia o direito de voto às mulheres, na época uma medida de vanguarda.

Já com a Frente Popular no governo, foi efectuada a Reforma Agrária nas regiões do sul, onde eram comuns as praças de “braceros”, com a expropriação de terras abandonadas com mais de determinada dimensão, depois exploradas pelo Estado ou por cooperativas de agricultores. Num só ano, já sem latifundiários absentistas, aumentou a terra cultivada em seis por cento. Embora num quadro de forte instabilidade, muitas indústrias, nominalmente privadas, foram intervencionadas e continuaram a laborar, e aumentou mesmo a produção em mais de 30 por cento no sector têxtil.

Foi alargada a rede de cuidados de Saúde, incluindo a vacinação, e na Justiça foi acelerada a tramitação processual nos tribunais ordinários.

Num só ano, o governo aumentou o orçamento da Educação em 500 por cento, foram inauguradas cerca de 1000 escolas. O número de professores aumentou de 37 mil para cerca de 60 mil.

Foi um tempo de florescimento cultural, de todas as artes, da imprensa, do movimento associativo. O teatro itinerante La Barraca foi montado por Lorca em 1931, no quadro do programa de Missões Pedagógicas do Ministério da Educação.

O Congresso dos Escritores reuniu, em 1937, muitos autores da Espanha Republicana como Antonio Machado, Miguel Hernandez, Rafael Alberti e teve a presença ou recebeu a solidariedade de intelectuais como André Gide, John dos Passos, André Malraux, Ernest Hemingway, Jaime Cortesão, Romain Rolland, Ilya Ehrenburg, Albert Einstein, Anna Seghers, Octavio Paz, Pablo Neruda, Bertolt Brecht, Louis Aragon, Bernard Shaw, Mikhail Cholokov ou Selma Lagerlof. Decorreu em Madrid e Valência em condições dramáticas, sob incessantes bombardeamentos, e o concerto de encerramento, com o violoncelista Pablo Casals, realizou-se em Barcelona.

No mesmo ano, no Pavilhão de Espanha da Exposição Internacional de Paris, Pablo Picasso expunha a sua imortal Guernica.

Em Julho de 1936, após a vitória eleitoral da Frente Popular nas eleições de Fevereiro, o Golpe dos Generais triunfou em algumas capitais provinciais, mas perdeu em Madrid, Barcelona, Valência e outras grandes cidades. Assim se iniciou a Guerra Civil, que causou centenas de milhares de vítimas de ambos os lados. No período seguinte ao seu termo e até 1946, os vencedores, segundo Paul Preston, assassinaram quase 150 mil pessoas.

O Exército rebelde teve o apoio das Forças Armadas da Alemanha de Hitler e da Itália de Mussolini, e o apoio efectivo de Salazar.

A República recebeu auxílio militar da União Soviética e o apoio de milhares de voluntários, 40 mil dos quais nas Brigadas Internacionais (18 mil morreram), vindos de países tão diferentes como os Estados Unidos da América, França, Alemanha, Polónia, Itália, México, Reino Unido, Áustria, Jugoslávia e de muitos outros, como Portugal, num exemplo histórico de solidariedade internacionalista, que nunca mais se repetiu com esta força e significado. Os voluntários integrados nas Brigadas abandonaram Espanha, em Setembro de 1938, em nome da política de “não intervenção”.

Razões de um desfecho

Em 1937, com Manuel Azaña como Presidente da República, com Juan Negrin na chefia de um governo de ampla unidade democrática, um acordo de acção conjunta assinado pelo PSOE e o PCE, o Exército finalmente disciplinado e organizado, as frentes de combate estabilizadas, Madrid, a capital, resistente, dir-se-ia que a Espanha republicana tinha condições para vencer. Mas tal não aconteceu, depois de mais dois anos de conflito.

Porque é que a República perdeu a guerra? O governo legítimo perdeu pelo concurso de dois factores decisivos:

Pesou também a hostilidade de grande parte da hierarquia da Igreja católica que, muito marcada pelos confrontos anticlericais, transformou o levantamento de Franco numa nova “Cruzada”. Proclamava o Bispo de Cartagena: «Benditos sejam os canhões se nas brechas que abrirem florescer o Evangelho.» (Tal não obstou a que 16 sacerdotes bascos fossem executados pelos vencedores, 278 presos e 1300 qualificados de “indesejáveis”).

A luta não terminou, em boa verdade, em Abril de 1939. O governo da República não se “rendeu”. Foi acolhido, bem como a representação permanente das Cortes, no México. Juan Negrin, a quem os governos de Paris e Londres pressionaram para afastar os comunistas do governo, e outros dirigentes, lutaram durante anos em defesa da legitimidade das instituições republicanas.

A luta prosseguiu com muitos milhares de republicanos espanhóis que combateram os nazi-fascistas, designadamente na Resistência francesa ou no Exército soviético, e em Espanha continuaram a luta contra a ditadura. Significativamente, por indicação do Comando, uma formação de militares espanhóis integrou a coluna do General Leclerc que primeiro entrou em Paris, em Agosto de 1944.

 

Federico Garcia Lorca (1898-1936)

A vida e obra de Federico Garcia Lorca são inseparáveis da história da República. Tendo integrado a “Geração de 27”, Lorca não se fechou em círculos eruditos, era um intelectual de novo tipo e um artista completo. Poeta (“Romancero gitano”, “Poeta em Nova Iorque”), dramaturgo (“ A casa de Bernarda Alba”, “Bodas de sangue”), autor de muitos outros trabalhos, desenhador, pianista, a sua força vinha do povo que conhecia como poucos.

Viajou por toda a Espanha, recolheu músicas, poesias, cantares, tendo organizado com Manuel de Falla a Festa do Cante Jondo, um acontecimento inovador. Como escreveu Joaquim Namorado, «conduziu a arte popular a uma arte de conteúdo universal». Viveu no continente americano mas, em 1931, quando a República surgiu, voltou a Espanha e foi um participante activo da vida cultural.

A arte de Lorca nasce do ser humano concreto, transcende-o, transfigura-o, mas nunca se desprende da vida, do trabalho, do sonho, da tragédia, da festa, do amor, de tudo quanto é essencialmente humano. Lorca não foi um militante político, mas declarou: «estou e estarei do lado dos que têm fome.»

Quando começou a Guerra Civil, refugiou-se em Granada, o lugar que melhor conhecia. Quando as milícias franquistas o encontraram, mataram-no. Em 18 de Agosto. Os mandantes do crime cuidaram que o seu corpo nunca fosse encontrado.

 

 

Bibliografia:

“Mourir à Madrid”, de F.Rossif e M.Chapsal, Éditions Seghers, Paris, 2003

“A guerra civil de Espanha”, de Hugh Thomas, Ed. Ulisseia, Lisboa

“Biografia de Federico Garcia Lorca”, de Joaquim Namorado, Ed.Saber, Coimbra, 1943

“Guerra e revolucion en España”, de Dolores Ibarruri e outros, Ed. Progresso, Moscovo, 1971

“ Guerra civil española”, de Jesus Andrés e Jesus Cuellar, prólogo de Paul Preston, Ed. Susaeta, Madrid

“História da literatura espanhola”, de José Maria Valverde”, Ed. Estúdios Cor, Lisboa, 1958

 

 

Jorge Sarabando