- Nº 2749 (2026/08/6)
Carolina Deslandes volta à Festa para concerto em nome próprio

«A arte sempre teve esta função de causar desconforto e abrir conversa»

Festa do Avante!

Carolina Deslandes volta à Festa do Avante! para um concerto em que interpretará clássicos e novidades. Autora, compositora e intérprete reconhecida, não teme mostrar as suas vulnerabilidades, pois é precisamente nesse momento que se sente mais forte.

Com “Mulher” e, mais recentemente, com “Sexo Fraco” e “Tento na Língua”, insistiu em temas ligados à liberdade feminina e à desigualdade. Sente que a canção ainda consegue abrir debate público real sobre estas matérias?

Tenho a certeza que sim. É muito assustador assumir posições na era do ódio e do cancelamento, mas é exactamente quando eu sinto que toquei na ferida que o propósito dessas canções se cumpre. A arte sempre teve esta função de causar desconforto e abrir conversa, e enquanto mulher eu sinto que tenho o dever de lutar por todas nós através da minha música.

A produção integralmente feminina de “Sexo Fraco” foi também uma tomada de posição. Quão importante é transformar princípios em escolhas concretas de trabalho?

O meu sector é um sector predominantemente masculino. A nível de músicos e produtores, então, é muito raro ver uma mulher. E trabalhar com mulheres tanto em palco como no meu último disco é transformador. Não o faço por serem mulheres, mas por serem incrivelmente talentosas e capazes. E quando nos juntamos sentimos mesmo que nos andaram a enganar e a afastar-nos umas das outras. As mulheres unidas são a potência mais valiosa do mundo.

O álbum “Chorar no Club” expõe uma nova fase da sua escrita. O que é que este disco tem de diferente na maneira de cruzar vulnerabilidade e afirmação?

É um disco mais atrevido. Mais dançante também. E é um disco onde eu muitas vezes sou o vilão. Acho que nós temos muita dificuldade em assumir que não sofremos só, também causamos sofrimento, sobretudo no amor. E este disco fala sobre isso. Acho que sou mais forte quando sou mais vulnerável, porque é preciso muita segurança para o fazer.

Tem falado das dificuldades da maternidade no sector cultural. O que continua por mudar, em termos muito práticos, para que as mulheres artistas não paguem nesta questão um preço demasiado alto?

Infelizmente falta tornar obrigatório a presença de mulheres nos cartazes. Porque se assim não for, vamos continuar a ver uma mulher para 10 homens. É triste chegarmos a medidas destas, mas é cada vez mais gritante a desigualdade que reina nos eventos culturais.

Para a Festa do Avante! imagina um alinhamento mais voltado para o disco novo, para os temas de causas, ou para os grandes refrões que o público espera?

Um “mix” dos três. Vai ser um espectáculo com tudo aquilo que eu sou. Há espaço para a novidade, para os clássicos, e há sempre espaço para intervir. Estou a contar os dias.