O canto das trincheiras da Guerra Civil de Espanha
As canções que soaram naquelas trincheiras recuperam, para as lutas de hoje, a mesma confiança na vitória da justiça
Numa trincheira republicana da Guerra Civil Espanhola, o fotógrafo fixou para os olhares dos tempos todos as duas armas de um combatente antifascista: a espingarda e a gaita de foles. Um outro combatente fixa a objectiva no que parece ser um momento de pausa na guerra feroz que o fascismo europeu levantou contra o governo eleito da Frente Popular. Mesmo que o testemunho vivo dos sofrimentos da Guerra Civil se venha esbatendo na memória colectiva, pelo andar do tempo ou a golpes de branqueamento mediático do fascismo, as canções que soaram naquelas trincheiras recuperam, para as lutas de hoje, a mesma confiança na vitória da justiça, que virá.
É claramente por isso que músicos do século XXI reinventam nos palcos de agora – e nas multidões que em coro se lhes juntam – aquele cancioneiro antigo. Desde “Anda Jaleo” a “Ay Carmela”, passando pela moda de gaiteiro – porventura destroçada nas margens do Ebro – há alento renovado num cantar em que, de novo, despontam as palavras necessárias de “En La Plaza De Mi Pueblo”.
A gaita de foles daquela velha fotografia denuncia a pertença popular dos combatentes e do cancioneiro que, naturalmente, levavam consigo. Algumas dessas canções da tradição oral tinham sido recolhidas e arranjadas por Federico Garcia-Lorca, e divulgadas nas digressões da companhia “La Barraca”, a companhia de teatro universitário ambulante criada em 1932 pelo poeta e dramaturgo. Cantavam-se, também, canções nascidas noutros contextos de luta, de composição mais contemporânea e servidas por palavras de poetas espanhóis como Lorca, Machado e Alberti. E outras ainda, acrescentadas pela militância internacionalista de autores como Hanns Eisler e Joe Hill, cantadas nos idiomas dos milicianos das Brigadas Internacionais. “Jarama Valley” foi uma dessas canções – antes de integrar o cancioneiro republicano espanhol era “Red River Valley”, a canção folk norte-americana que ficaria na História com os versos escritos por Alex McDade, combatente das Brigadas Internacionais caído em combate nos arredores de Madrid.
Do lado de cá da fronteira
Maria Dulce Simões, investigadora da Universidade Nova de Lisboa, perseguiu na raia do Baixo Alentejo as memórias das canções da guerra civil espanhola, nas vozes escondidas de quem procurava aldeias como Barrancos e Ficalho para fugir aos pelotões da Guardia Civil franquista. Relata a investigadora: «Na memória colectiva dos meus informantes, de ambos os lados da fronteira, as mulheres republicanas eram sistematicamente referenciadas, por representarem um símbolo de emancipação da década de 1930, reclamando e defendendo os seus direitos, intervindo na vida pública, pegando em armas, mas também pela brutalidade da repressão que se abateu sobre elas por terem trespassado a fronteira social estabelecida pela sociedade patriarcal. A canção “¡Ay, Carmela!” recordava-lhes simbolicamente a luta dessas mulheres trabalhadoras e resistentes antifascistas. A canção, também conhecida como “El Paso del Ebro” ou “El Ejército del Ebro”, foi originalmente composta em 1808 contra as invasões francesas na Guerra da Independência. No contexto da guerra civil espanhola foi apropriada pelos milicianos republicanos que lhe introduziram diversas alterações textuais, de forma a adequar-se ao momento histórico. Nas ruas e nas trincheiras entoava-se “¡Ay, Carmela!” ao ritmo do fandango, recordando num canto colectivo que “nada pueden bombas donde sobra corazón”, consagrando, com o poder da guitarra, o desejo de uma vitória inatingível. (…) El furor de los traidores (rumba la rumba la rumba la) / lo descarga su aviación./ Pero nada pueden bombas, / donde sobra corazón, (¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!).»
“No pasarán”
Coplas, vilancicos, pasodobles e os demais géneros musicais dos povos de Espanha participaram nos combates da guerra que lhe foi movida pelo fascismo europeu. Na retaguarda, nas salas de concerto e em transmissões radiofónicas, por seu lado, mantinha-se a custo uma vida musical que era cumprimento do programa republicano para a Cultura, envolvendo músicos como Pau Casals e Manuel de Falla, entre muitos outros, juntando no quotidiano da Espanha democrática e combatente todas as músicas da Humanidade – de Mozart e Beethoven interpretado pela Orquestra Nacional, às coplas e ao flamenco das vozes de Miguel de Molina e de Angelillo.
Entre Janeiro e Março de 1937 o governo francês abriu o posto fronteiriço de Bourg-Madame à passagem, a caminho do exílio, de milhares de refugiados espanhóis. A pequena vila do sul dos Pirenéus será o lugar da última canção da Guerra Civil de Espanha e a primeira da nova etapa da luta antifascista.
«Españoles, salís de vuestra pátria / después de haber luchado contra la invasión / caminando por tierras extranjeras / mirando hacia la estrella de la liberación. //
Camaradas caídos en la lucha / que disteis vuestra sangre por la libertad / os juramos volver a nuestra España / para vengar la afrenta de la humanidad. //
A ti Franco traidor vil asesino / de mujeres y niños del pueblo español / tú que abriste las puertas al fascismo / tendrás eternamente nuestra maldición.»




