- Nº 2749 (2026/08/6)
Falam as vítimas
"Era cedo, a manhã calma, quente e bela. Folhas reluzentes, reflectindo a luz do sol de um céu sem nuvens, criavam um contraste agradável com as sombras do meu jardim." - Diário do Dr Hachiya, médico em Hiroshima.
A bomba "Little Boy" explodiu às 8h16min02s, a 6 de agosto de 1945, hora de Hiroshima. Quarenta e três segundos após ter sido lançada do Enola Gay, a 580 metros acima do pátio do Hospital Shima, a 168 metros a sudoeste do alvo, a ponte Aioi, com uma potência equivalente a 12.500 toneladas de TNT.
"Assim que olhei para o céu, houve um clarão de luz branca e o verde das plantas, sob aquela luz, parecia da cor de folhas secas" - Menina de cinco anos que vivia nos subúrbios.
"Logo depois da voz da nossa professora, dizendo 'Ah, ali está um B!' [B-29], nos fazer olhar para o céu, sentimos um relâmpago tremendo. Num instante, ficamos cegos e tudo se transformou num frenesim de delírio" - Uma jovem estudante universitária.
"Como o calor do clarão chega num intervalo de tempo tão curto, não há tempo para que ocorra qualquer arrefecimento, e a temperatura da pele de uma pessoa pode subir [+50 ºC]... no primeiro milissegundo a uma distância de [3,7 km]." – Estudo do projecto Manhattan (o projecto de desenvolvimento da bomba atómica).
"A temperatura no local da explosão... atingiu os [3000 ºC]... e foram encontradas lesões térmicas primárias provocadas pela bomba atómica... naqueles expostos até [3,2 km] do hipocentro... As queimaduras primárias são lesões de natureza especial e não são comuns no dia-a-dia." - Estudo japonês sobre o bombardeamento de Hiroshima, 1976.
"Não acredito que alguém alguma vez tenha esperado ver uma cena como aquela. Onde dois minutos antes víamos uma cidade clara, agora já não a conseguíamos ver. Podíamos ver fumo e incêndios a subir pelas encostas das montanhas." - Robert Lewis, tripulante do B-29 Enola Gay.
"Se quiser descrevê-la com algo familiar, seria como uma panela de óleo preto a ferver..." - Van Kirk, tripulante do B-29 Enola Gay.
“Perguntei ao Dr. Koyama quais tinham sido as suas observações em doentes com lesões oculares. ‘Aqueles que viram o avião ficaram com a superfície ocular queimada’, respondeu. ‘O clarão aparentemente atravessou as pupilas e deixou uma área cega na porção central do campo visual. A maioria das queimaduras na superfície ocular são de terceiro grau, pelo que a cicatrização é impossível.’" - Relatório do Dr. Hachiya.
A luz não queimou aqueles que estavam protegidos dentro dos edifícios, mas a onda de choque da explosão encontrou-os:
"Aquele rapaz estava num quarto à beira do rio, a olhar para o rio quando a explosão aconteceu, e nesse instante, quando a casa desabou, foi atirado do último quarto para o outro lado da rua, para a margem do rio, e caiu na rua abaixo. Durante esse percurso, atravessou algumas janelas da casa e o seu corpo ficou cheio de todos os vidros que conseguiu reter. É por isso que estava completamente coberto de sangue."
"A aparência das pessoas era... bem, todas tinham a pele enegrecida por queimaduras... Não tinham cabelo porque o cabelo estava queimado, e à primeira vista não dava para saber se as estávamos a ver de frente ou de costas... Mantinham os braços [à frente do corpo]... e a pele — não só das mãos, mas também do rosto e do corpo — pendia... Se tivesse havido apenas uma ou duas pessoas assim... talvez eu não tivesse tido uma impressão tão forte. Mas onde quer que eu andasse, encontrava essas pessoas... Muitas delas morreram na estrada — Ainda as consigo visualizar na minha mente — como fantasmas ambulantes... Não pareciam pessoas deste mundo... Tinham uma forma muito peculiar de andar — muito devagar... Eu próprio era uma delas."
Ficamos por aqui nos relatos dos sobreviventes. A descrição do horror e do sofrimento das vítimas, em larga maioria civil, está registada em inúmeros relatos e imagens, e, em particular, no Museu Memorial da Paz de Hiroshima.
Dos 255.000 habitantes de Hiroshima à data do ataque, 70.000 foram mortos na explosão ou pouco depois. Até ao fim desse ano o número total de mortos ascenderá a 140.000 (55 % da população inicial) fruto dos ferimentos e do desenvolvimento da então desconhecida “doença das radiações”. A estes há que juntar as vítimas do ataque a Nagasaki, três dias depois (no mesmo dia em que as tropas soviéticas invadiram a Manchuria e as ilhas Sacalina), do qual resultaram cerca de 74.000 mortos.
Pela primeira vez na história do homem tinha sido usada a arma atómica, num bombardeamento indiscriminado de civis. Tratou-se de mais um crime do exército Americano e uma das páginas mais negras da 2.ª Guerra Mundial.
As razões para o uso da bomba atómica
A justificação oficialmente invocada para a utilização da bomba atómica seria a de salvar vidas de soldados americanos, forçando à rendição incondicional do Japão. Com efeito, o exército americano tinha tido a experiência amarga da conquista das ilhas do sul do Pacífico que se traduziu num alto custo em vidas. Mas por mais pretextos invocados para o “justificar”, tratou-se de uma criminosa afirmação de força por parte dos EUA na sua pretensão de diminuir o papel da União Soviética na derrota do nazi-fascismo e de impor a sua hegemonia no plano internacional.
Após o ataque a Hiroshima, a União Soviética antecipou a sua entrada em guerra com o Japão para 9 de Agosto de 1945 com a invasão soviética do Estado fantoche japonês de Manchukuo. Os soviéticos e os mongóis acabaram com o controlo japonês em Manchukuo (Manchúria), Mengjiang (Mongólia Interior), norte da Coreia, Karafuto e Ilhas Chishima. A rápida derrota do Exército japonês de Guangdong ajudou na rendição japonesa a 15 de Agosto e no término da Segunda Guerra Mundial.
Os sobreviventes
O bombardeamento de Hiroshima e o subsequente ataque a Nagasaqui, três dias depois, puseram um fim abrupto à Segunda Guerra Mundial. Mas, para os sobreviventes, foi apenas o início de uma luta que duraria uma vida inteira contra as cicatrizes físicas e emocionais daquele dia.
Conhecidos como Hibakusha1 estas vítimas, além dos efeitos físicos, foram alvo de discriminação na sociedade Japonesa e impedidos de falar. Esta discriminação assenta na crença comum de que podiam estar física ou psicologicamente debilitados e que os efeitos da radiação são hereditários ou contagiosos. Muitos Hibakusha não querem que a sua condição seja conhecida, pois isso pode afectá-los no emprego ou no casamento. Até ao presente cerca de 525.000 Hibakusha já faleceram e estão lembrados em memoriais, 330.000 em Hiroshima e 190.000 em Nagasaki. Em Julho, 2026 o número destes sobreviventes desceu para 91.0002.
O bombardeamento de Hiroshima e a luta pela paz e o desarmamento
O uso da bomba atómica desencadeou de imediato uma reacção pública de repulsa por muitos dos cientistas mais proeminentes da época, em particular de muitos dos envolvidos no projecto Manhattan. Einstein, que conjuntamente com Leo Szilard escrevera em 1939 uma carta ao presidente americano Roosevelt encorajando os EUA a criar a bomba atómica, veio mais tarde considerar que tinha sido “um dos grandes erros da sua vida”. Com o desenvolvimento das armas nucleares, pelos EUA, pela União Soviética (em 1949), pela Inglaterra (em 1952) e a realização de testes nucleares, a opinião pública começa a tomar consciência dos riscos e formaram-se os primeiros movimentos cívicos em defesa da paz e desarmamento.