- Nº 2750 (2026/08/13)A primeira obra adjudicada na Faixa de Gaza pela chamada Junta de Paz, criada pelos EUA, é uma base militar para albergar tropas marroquinas integrantes de uma Força Internacional de Estabilização também controlada por Washington.
A Junta de Paz criada pelos Estados Unidos da América (EUA) celebrou um contrato para a primeira obra na Faixa de Gaza, informou o jornal britânico The Guardian. Não se trata da reconstrução do enclave – 90 por cento do qual foi destruído pelos bombardeamentos de Israel – mas da edificação de uma base militar para 150 pessoas, que albergará tropas marroquinas nos 60 por cento do território hoje directamente ocupado pelo exército israelita.
A obra foi adjudicada a uma empresa dos EUA que no passado foi contratada pelo governo norte-americano para projectos no Iraque.
Marrocos, um aliado dos EUA e de Israel, concordou em enviar para o enclave costeiro palestiniano tropas integrantes de uma Força Internacional de Estabilização, criada pela chamada Junta de Paz, para controlar a zona em nome de Washington e Telavive.
Esse organismo, presidido por Donald Trump, assessorado pelo seu genro Jared Kushner e pelo seu amigo Steve Witkoff, trabalha com um Comité Nacional para a Administração de Gaza na preparação de adjudicações de várias obras.
A referida base militar, inicialmente com 100 por 120 metros, contempla uma estrada rápida até Israel para utilização das tropas ocupantes. O projecto indica que a obra será apenas a primeira fase de uma base maior destinada a cinco mil efectivos, com instalações de combate e perímetro defensivo.
Esta primeira adjudicação ocorre quando mais de dois milhões de palestinianos vivem em condições precárias, maioritariamente em acampamentos de tendas, onde sofrem assédio, fome e ataques diários por parte do exército israelita, que destruiu de 80 a 90 por cento das construções e da infraestrutura, tornando quase inabitável a Faixa de Gaza, além de assassinar mais de 73.000 pessoas e ferir mais de 172.000, a maior parte delas crianças e mulheres.
Violações israelitas do cessar-fogo em Gaza
O Gabinete de Imprensa da resistência palestiniana em Gaza informou que a ocupação israelita infringiu o acordo de cessar-fogo em mais de 4.091 ocasiões durante os últimos 300 dias e tirou a vida de mais de 1.254 palestinianos, provocou ferimentos a 4.121 pessoas e a prisão de 159 cidadãos.
O relatório, divulgado a 6 de Agosto, pormenoriza que essas violações coincidem com a obstrução sistemática do acesso de camiões carregados com alimentos e ajuda humanitária, assim como com a imposição de restrições ao movimento de pessoas para e desde a Faixa de Gaza.
Segundo dados proporcionados pelo Gabinete de Imprensa, as autoridades israelitas só permitiram o ingresso de 83.094 camiões dos 180.000 necessários, o que representa uma taxa de cumprimento de 35 por cento.
Quanto ao posto fronteiriço de Rafah, foi autorizada unicamente a passagem de 10.703 viajantes dos 27.400 previstos desde que se acordou a abertura da fronteira, o equivalente a um cumprimento de 39 por cento. O documento também registou a detenção de 159 palestinianos durante a vigência do acordo de tréguas.
O Gabinete de Imprensa condenou a política sistemática da ocupação contra o povo palestiniano e responsabilizou-a pelo agravamento da situação humanitária no enclave.
O organismo fez um apelo aos países mediadores e patrocinadores do acordo de cessar-fogo para que obriguem Israel a cumprir com os termos estabelecidos e travar as suas constantes violações.
O acordo de cessar-fogo na Faixa de Gaza, vigente desde há 300 dias, tem estado marcado por denúncias recorrentes de incumprimento. Os dados difundidos confirmam que, transcorridos 10 meses desde a entrada em vigor da trégua, a situação humanitária em Gaza permanece condicionada pelas restrições ao ingresso de ajuda e pelas operações militares esporádicas em distintas partes do território.
300 menores mortos por Israel em 300 dias
O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) revelou, na quinta-feira, 6, que pelo menos 300 menores de idade da cidade palestiniana de Gaza foram assassinados por Israel nos 300 dias que passaram desde o anúncio de cessar-fogo de Outubro de 2025, o equivalente a uma alarmante média de uma criança morta por dia, o que constitui um crime de guerra.
«Com mais centenas de crianças feridas, muitas delas gravemente, os meninos de Gaza continuam à espera do fim da violência que lhes foi prometido. (…) Um cessar-fogo que deixa uma criança morta por dia está a falhar com as crianças», afirmou Edouard Beigbeder, director regional da Unicef para o Oriente Médio e o Norte de África.
O organismo denunciou que estas mortes foram causadas em consequência da quebra do cessar-fogo em curso, que obriga a suspensão das operações militares e o acesso a ajuda humanitária e assistência. Neste sentido, instou que os acordos se traduzam em mudanças efectivas no terreno no que diz respeito a um cessar real dos confrontos armados.