- Nº 2752 (2026/08/27)
Os mais velhos lembram-se bem do Telescópio Espacial Hubble. Os mais novos já conhecem o Telescópio Espacial James Webb (JWST). O que muitos desconhecem é que existem cerca de 20 telescópios espaciais ainda em funcionamento. Por exemplo: o Telescópio Espacial de Raios-Gama Fermi, o Observatório de Raios-X Chandra, o XMM-Newton, o CHEOPS (focado na caracterização de exoplanetas) e o Euclid (focado na matéria escura e na energia escura).
Com imagens do Euclid — lançado em 2023 —, o investigador chinês Daming Yang, a fazer o seu doutoramento na Universidade de Leiden, nos Países Baixos (onde, contrariamente ao nosso país, as bolsas de doutoramento são contratos de trabalho), descobriu 31 novos quasares, dois dos quais entre os mais antigos alguma vez observados.
Mas o que é um quasar? Um quasar — nome atribuído nos anos 60 por ser um “objeto quase-estelar” — é o núcleo muitíssimo brilhante de uma galáxia distante que alberga no seu centro um buraco negro supermassivo. Como o próprio nome indica, um buraco negro não emite luz; porém, a matéria que orbita ao seu redor a velocidades e pressões extremas atinge temperaturas altíssimas e, por isso, brilha intensamente. Um simples quasar pode brilhar mil vezes mais do que a nossa galáxia inteira. No centro da Via Láctea também existe um buraco negro supermassivo, mas não temos um quasar porque ele já “comeu” a maior parte do gás e da poeira que lhe estavam próximos, não havendo matéria disponível para gerar esse brilho. É quase certo que já tivemos um no passado, mas hoje encontra-se em repouso.
Por que razão são os quasares importantes? Porque são extraordinariamente brilhantes e estão extremamente distantes. Em astronomia e astrofísica, olhar para longe significa olhar para o passado. Não estamos a falar de objectos dentro do nosso Sistema Solar, mas sim de centros de outras galáxias que estão a milhares de milhões de anos-luz de nós. Um ano-luz equivale a cerca de 9,5 biliões de quilómetros (9,5 milhões de milhões) — cerca de 63 mil vezes a distância da Terra ao Sol. Como a luz que observamos hoje desses objectos partiu deles há milhares de milhões de anos, estamos literalmente a ver o passado. Pensemos numa trovoada: ouvimos o trovão alguns segundos após o relâmpago porque o som viaja a cerca de 340 metros por segundo. Em astronomia acontece o mesmo: observamos o passado porque, embora a luz viaje a cerca de 300 000 quilómetros por segundo, as distâncias no Universo são gigantescas. Observar quasares é ver uma luz que atravessou meio Universo, gravando em si mil e uma alterações até chegar a nós. É, por isso, estudar um registo do Universo primordial. É também estudar o período da história do Universo em que quase tudo parece ter “acendido”. Embora já tivesse surgido uma primeira geração de estrelas, o Universo permaneceu muito opaco, como se estivesse enevoado. Foi no meio deste período de “ignição”, chamado época da reionização, que os quasares surgiram. Estudá-los é compreender como o Universo se tornou transparente, transformando-se no espectáculo que hoje observamos e no qual existimos.