- Nº 2752 (2026/08/27)

Buraco negro

Opinião

A dívida pública dos EUA ultrapassou a cifra astronómica de 40 biliões de dólares, cerca de 125% do PIB. Desde o início do primeiro mandato de Trump, em 2017, o seu valor mais do que duplicou. Só nos últimos cinco meses galgou 1 bilião de dólares, o equivalente, segundo cálculos da Euronews, ao salário médio de 615 milhões de anos de um trabalhador norte-americano. O serviço da dívida converteu-se na alínea que mais cresce no orçamento nacional, superando já a fasquia de 1 bilião de dólares anuais, algo como cerca de 19% da receita fiscal do governo federal. Com um défice orçamental a rondar os 6% do PIB, o imparável ciclo vicioso da dívida pressiona em alta o mercado obrigacionista, cujos títulos a 30 anos atingiram os valores mais elevados desde 2007 (nas vésperas da irrupção da Grande Recessão mundial, com epicentro nos EUA). Embora os média dominantes façam por ignorar, em Wall Street acendem-se os alertas vermelhos devido à formação da colossal bolha especulativa em torno da IA e a uma alta das cotações bolsistas raramente verificada, em grande medida, sustentada pela valorização desmedida de biliões de dólares de meia dúzia de Big Tech.

A explosão da dívida nos EUA é inseparável do quadro de estagnação económica, financeirização e desindustrialização, realidade extensível ao conjunto das potências imperialistas do G7, e traduz os crescente desequilíbrios estruturais que assolam o mundo capitalista e catalisam a sua crise. Inevitavelmente, transporta as marcas de classe da política de concentração capitalista de que os EUA são expoente (veja-se as sucessivas benesses da Administração Trump aos super-ricos) e espelha a sua natureza intrínseca, exploradora e agressiva. Neste âmbito, as despesas militares são um dos principais factores que impulsionam a espiral de endividamento. Incluindo a intensificação da guerra ao Irão, na qual tendo fracassado com estrépito em atingir os objectivos declarados (e os reais, deslocados bem mais para Leste, na Ásia...), os EUA proclamam agora uma guerra económica nunca vista. Bazófia à parte, a realidade é que o presente estrangulamento de Ormuz (agravado pela guerra na Europa) está e vai repercutir-se gravemente na economia mundial e na própria situação interna dos EUA, o que também realça a irracionalidade da agressão militar retomada a 28 de Fevereiro.

Contexto em que se multiplicam os sinais de degradação, instabilidade e autofagia económica à escala mundial. Neste mês estival, o Tesouro norte-americano veio em “socorro” do iene japonês, face à pior desvalorização em 40 anos. Uma ponte financeira de emergência em que comprou massivamente ienes, não com dólares, mas euros… Uma medida, com laivos de desespero, destinada a evitar a venda em cadeia de títulos da dívida dos EUA (de que o Japão é o maior detentor estrangeiro) e a continuar a empurrar o Japão na via suicida do militarismo. Uma manobra sem aviso prévio, recebida na UE como mais um balde de água fria. A vassalagem impõe, contudo, a Bruxelas que prossiga a ingestão da cicuta em silêncio… Washington não poupa “aliados”, como se vê também pelas tarifas aplicadas ao Canadá e a verdadeira OPA hostil sobre a soberania que tenta impor ao país vizinho.

Os EUA são hoje um monstruoso buraco negro no centro da constelação capitalista mundial. Quanto mais depressa a Humanidade tomar disso consciência, maiores as hipóteses de evitar o pior.

 

Luís Carapinha