Turismo no Norte prospera com salários muito baixos

«Enquanto os hotéis e restaurantes aumentam as suas margens de lucro, milhares de profissionais recebem apenas o salário mínimo nacional», denunciou o Sindicato da Hotelaria do Norte, nas ruas do Porto.

No sector do alojamento o salário médio está 384 euros abaixo do nacional

Um grupo de dirigentes e delegados sindicais e outros trabalhadores dos sectores de alojamento, restauração e bebidas realizou, no dia 21, sexta-feira, uma «arruada» na baixa do Porto, com paragens junto de estabelecimento destes sectores. Começou no Hotel Brasileira, na Rua Sá da Bandeira, um percurso que passou, entre outros hotéis e restaurantes, pela Pousada Porto (Pestana), Carrís Hoteles, Pestana Vintage e Paris (Stay Hotels).

O desfile terminou na Ribeira, onde interveio o coordenador da União dos Sindicatos do Porto, Filipe Pereira, membro da Comissão Executiva da CGTP-IN.

O objectivo foi entregar às empresas uma carta-aberta, a reclamar resposta urgente à exigência de um aumento salarial intercalar. «A qualidade e a reputação internacional, que o turismo do Norte tanto promove, não podem continuar a ser subsidiadas pelos salários de pobreza de quem acolhe os visitantes», afirma-se no documento, também divulgado à comunicação social.

O sindicato realizou esta acção no âmbito de uma campanha nacional dinamizada pela FESAHT/CGTP-IN. No mesmo dia, o Sindicato da Hotelaria do Centro realizou uma iniciativa semelhante nas cidades de Fátima e Leiria.

 

Valorização urgente

Na carta-aberta, explica-se que, «para repor o poder de compra perdido, valorizar as profissões do sector e garantir a sustentabilidade da economia local», os trabalhadores exigem «a aplicação imediata» de várias medidas, a começar por uma actualização salarial de 15 por cento, garantindo um aumento mínimo de 150 euros para cada trabalhador e fixando o salário de entrada do sector em 1150 euros».

Exige-se ainda a actualização do «prémio de línguas» (para 60 euros mensais, por cada língua estrangeira falada), do valor das diuturnidades (30 euros a cada quatro anos), do «abono de falhas (para 65 euros por mês) e do subsídio de alimentação (para 264 euros mensais).

Como compensação por horários desgastantes, reivindica-se um prémio no valor de 25 por cento da retribuição-base para trabalhadores em regime de turnos ou com horário repartido. O trabalho ao fim-de-semana deve ser pago com acréscimo de 25 por cento e, em dias feriados, com um acréscimo de 200 por cento.

Deve ser garantido, pelo menos, um fim-de-semana de descanso por mês e o trabalhador deve ter direito a dispensa remunerada no seu dia de aniversário.

Os horários de trabalho devem ser previsíveis e escalonados com antecedência, avançando progressivamente para a semana de 35 horas.

As férias devem ser de 25 dias, para todos os trabalhadores, sem quaisquer penalizações ou cortes.

O sindicato alertou que, «sem uma resposta urgente a este caderno reivindicativo, o sector enfrentará uma escassez de mão-de-obra ainda mais severa».

 

Contraste chocante

A nível nacional, assinala-se no carta-aberta, o turismo ultrapassou 36,2 mil milhões de euros de receitas anuais, consolidando o seu peso de 11,5 por cento do PIB.

Na Região Norte, o sector «vive uma excelente situação económica, acumulando anos sucessivos de recordes no número de hóspedes, dormidas e facturação».

Sucede que «esta extraordinária saúde financeira contrasta, de forma chocante, com a dura realidade vivida pelos trabalhadores da hotelaria, restauração e bebidas, cujos rendimentos continuam completamente congelados e desvalorizados». Ao mesmo tempo, «o custo de vida disparou em áreas críticas onde as famílias não podem cortar».

Citando dados do Instituto Nacional de Estatística, o sindicato salienta que «o salário médio, no sector do alojamento, afunda 384 euros abaixo do salário médio nacional», mas «este fosso salarial seria, substancialmente, mais profundo» se fossem tomadas em consideração as componentes da Restauração e Bebidas.

As associações patronais, neste panorama, «continuam a bloquear e a arrastar eternamente as negociações das tabelas salariais, recusando-se a redistribuir de forma justa a riqueza que os trabalhadores geram com o seu esforço diário».



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