- Nº 2754 (2026/09/10)
Cidade da Juventude

A Festa és tu!

Festa do Avante!

Na 50.ª Festa do Avante!, a Cidade da Juventude voltou a ser ponto de encontro de milhares de jovens. Entre quem regressa e quem chegou pela primeira vez, três dias de construção, cultura, debate e convívio deixaram uma pergunta para depois da Festa: como levar para a vida aquilo que aqui se constrói?

«A Festa és tu», lia-se no mural colectivo que, ao longo do fim-de-semana, vai ganhando as cores de quem passa pela Cidade da Juventude. A frase podia servir de legenda a todo o espaço. Porque aqui os jovens não são apenas público: constroem, organizam, fazem turnos, discutem a programação, pintam, dançam, ouvem música, debatem e decidem o que querem afirmar.

Nesta 50.ª edição, a Cidade apresentou-se renovada também na forma. Carolina Gonçalves destaca uma arquitectura pensada e construída pelos próprios jovens – com novas geometrias e uma reorganização do espaço, como a mudança do bar para um local mais central, que melhorou a fluidez e o ambiente. A construção obrigou a encontrar novas soluções para problemas concretos, a experimentar materiais, formas e respostas, desenvolvendo a criatividade e a capacidade colectiva de resolver dificuldades. Uma aprendizagem que não fica na Atalaia: a experiência de procurar em conjunto respostas para aquilo que surge ajuda a encarar os desafios da luta quotidiana, e deixa conhecimentos que regressarão às próximas edições. «Os camaradas retiram desta construção elementos que levam para o seu dia a dia, como serem mais criativos e desenvolverem o pensamento», reforça Carolina.

A programação procurou igualmente alargar fronteiras. Úrsula Ventura fala de uma proposta «mais diversa do que nos anos anteriores». Logo na sexta‑feira, a dança estreou uma coreografia criada especialmente como homenagem aos 50 anos da Festa. E, pela primeira vez, a Cidade recebeu uma intérprete de música clássica, que concebeu para a ocasião uma actuação própria, incluindo uma adaptação do cancioneiro tradicional. A novidade encontrou resposta entre os jovens, que procuraram a organização para dizer quanto tinham gostado de encontrar ali «coisas novas» e linguagens que nem sempre lhes são facilmente acessíveis. Nos dias seguintes, o mesmo espaço recebeu a Batalha do Conhecimento – já habitual, com grande adesão – e o podcast Seja Como For, ao vivo e em diálogo com o público, gerando forte interacção. À volta, os debates levaram à discussão a luta dos trabalhadores, os influencers, os ataques do Governo à Educação e a pergunta sobre como «a vida pode ser como a Festa do Avante!». Houve ainda a apresentação do livro do 13.º Congresso da JCP (Nas nossas mãos o mundo novo!), uma exposição dedicada aos movimentos de massas da juventude e o desfile da JCP.

Mas talvez o que melhor explique a Cidade da Juventude não esteja escrito no programa. Inês Guerreiro conta que existia alguma expectativa perante o elevado número de jovens que viriam pela primeira vez. Será que perceberiam imediatamente aquele espírito particular? A resposta apareceu nas coisas pequenas. Jovens que não conheciam os camaradas que faziam um turno de limpeza viram‑nos atrapalhados e levantaram‑se para ajudar. «Meio que se tornou uma coisa natural», sublinha.

É essa naturalidade que distingue, para Inês, este espaço de outros lugares criados para jovens mas que precisam de ser artificialmente animados. «Não precisamos de fazer esforço nenhum para os jovens virem para este espaço. Eles vêm. Encontram‑se. Ficam. É o nosso espaço. Nós é que decidimos o que é que trazemos aqui, discutimos em conjunto o que queremos fazer e o que queremos afirmar.»

Muitos chegaram através de amigos. Outros conheceram a JCP nas lutas do último ano – nas escolas, no Ensino Superior, na manifestação nacional de estudantes de 24 de Março e na luta contra o pacote laboral. O crescimento da venda de EP é, para Inês, reflexo desse trabalho orgânico. E durante a Festa, as brigadas de contacto continuam-no, procurando chegar aos que vieram apenas conhecer e que partem dizendo «estou sem palavras», «isto é mágico» ou «vou voltar sempre». Vitórias na batalha contra os preconceitos sobre os comunistas e o seu projecto, mas sobretudo a possibilidade de experimentar outras relações entre as pessoas – uma juventude que, por três dias, encontra no colectivo uma alternativa ao individualismo e ao consumismo quotidianos.

Por isso, «A Festa és tu» não termina no mural. Se a Festa transforma quem a faz e quem nela entra pela primeira vez, o desafio recomeça quando as luzes se apagam na Atalaia. Como resume Inês Guerreiro, trata-se agora de «levar essa transformação para transformar as nossas vidas também».