- Nº 2754 (2026/09/10)
Intensos, arrojados, diversificados e justos – são estes alguns dos adjectivos que podemos escolher para descrever os muitos artistas que pisaram o Palco 25 de Abril. Do lado de lá do palco, os milhares que por lá passaram, cantaram e dançaram, fizeram-lhes justiça e, tanto na música como nas palavras de ordem, não lhes largaram a mão. É esse um dos elementos que também torna a Festa impressionante e especial: o que ali se vive, se partilha e comunga, de igual para igual.
Combater a guerra
Sábado houve Punk e Rock no palco com as Anarchicks. Aqui e ali, algum namoro com o Pop, através das melodias vocais na voz marcante de Rita Sedas. Mas, o que ali mais se ouviu foram riffs habilmente compassados em canções freneticamente encadeadas. Punk Rock muito puro e duro de afirmação de mulheres poderosas para deleite de todos.
Seguiu-se Hip Hop, em grande força no Palco 25 de Abril deste ano, com King Bigs e a batida que o acompanhou ao serviço das palavras de intervenção e de crítica social. Batida que, aliás, navegou também pelos ritmos africanos.
Bombino foi virtuosíssimo na guitarra sem nunca cometer excessos. Se é verdade que naquele músico do Níger se ouvem influências ocidentais do funk e do rock, ali estava o blues como bússola, não fossem precisamente as raízes deste género oriundas da música do Sahel. Na sua voz esteve o dialecto tuaregue da sua terra, cantando pelo seu povo e pela paz, como explicou nas curtas introduções que ali fez em francês.
«50 anos é obra!» afirmou Tim nos 50 anos da Festa e, simultaneamente, nos seus 50 anos de carreira. Tim entra merecidamente no Palco 25 de Abril como quem entra em casa. Percorreu canções históricas cantadas, palavra a palavra, por toda a gente. Mesmo de bem longe do palco. «Festa é Festa, mas não há festa como esta». Ali encontrou amigos cúmplices da música e da palavra, como João Monge na Festa do Livro, ou Pedro Jóia e Mário Laginha no mesmo palco, onde partilharam a sua mestria com ele. As vozes Tutti Encantus e a de Tim combinaram como se fossem uma. O Tim e a Festa também.
Da Palestina para a Atalaia, os 47Soul provaram que a solidariedade com a Palestina está viva. Nos muitos keffiyehs agitados durante o concerto e nos grupos que dançavam a dabke também. Prova da solidariedade de sempre da Festa com este povo massacrado foi a afirmação do grupo jordano-palestiniano que encerrou o concerto: «foi bom estar de volta».
Pedro Jóia preparou o seu concerto especificamente para o Palco 25 de Abril. Com ele trouxe o incontornável Ney Matogrosso. E que momento foi. Um recinto a abarrotar, gente espraiando-se pelas principais artérias da Atalaia. Alguns lacrimejando de comoção, outros embalados pela doçura da voz e dos acordes da dupla. Cada momento, do início ao fim, merecem devido ênfase, mas destaquemos Rosa de Hiroshima – um forte testemunho anti-guerra, ainda mais valioso entre os dias que vivemos – e Homem com H, por excelência, o hino à irreverência de Ney. Como se não bastasse tudo isto, os muitos minutos do concerto, que acabaram por parecer poucos, foram pejados de surpresas: surgiram Manuel João Vieira, que cantou, em tom retumbante e com o público, Hasta Siempre, Comandante; e Luanda Cozetti, conterrânea de Ney que o acompanhou em segunda voz.
O concerto de Ivandro provou o porquê deste já ter obtido a marca de músico nacional mais ouvido. Música atrás de música, a plateia não silenciou e teimou em acompanhar o músico natural de Angola, como em Como tu.
Já Carlão é um bom conhecido da Atalaia, assim como o seu flow inconfundível. Pisou aqueles palcos diversas vezes e de novo não se poupou na crítica e mensagem política: balançou o público p’ra esquerda ao “cuspir” «subimos o montenegro, caímos na desventura» ou então ao questionar «o que seria» se não existissem «classes sociais». Terminou com Os vampiros, acompanhado pelo rufar dos Porbatuka.
Cultura ao serviço da luta
Ghoya levou o rap crioulo à Festa. «Boa tarde, Camaradas!» logo de entrada e ali se cantaram a justiça na vida, a habitação, a dignidade e a «unidade» necessária para lutar por elas. Temas enquadrados, cantados sempre incisivamente, com a voz feminina de Vilma a dar brilho a todo o concerto.
Luta Livre não é óbvio. É transparente e pungente. Mesmo com sol abrasador, Luís Varatojo arranca o público e não o abandona. «Não viemos cá para entreter, viemos para ajudar na luta!». Dedicou Gratidão aos construtores da Festa, lembrou Ruben, incluiu Álvaro Cunhal na letra. No fim, aclamado, entendeu ser «uma honra muito grande fazer a primeira parte do Camarada Paulo Raimundo». É Luta. É Livre. É Luta Livre!
Foi Regula quem retomou a programação do palco após o grandioso comício. O rapper português, natural dos Olivais e criado em Loures, relatou a vida difícil de quem não nasce abonado.
Carolina Deslandes teve o «prazer»(com mestria)de encerrar o palco, num concerto pensado para a Festa, mas celebrando a mulher, a verdadeiramente livre, viva e não a que tantos idealizam: calada, obediente e amordaçada. A ela juntou-se Carlão num momento de surpresa e antes de terminar apelou à luta, necessária «agora, mais do que nunca».