Sem vacilações

Gustavo Carneiro

Colonialismo, escravatura, guerras mundiais, fascismo: há um intenso debate académico (e político) em curso sobre estas e outras questões, que importa acompanhar – e, se possível, nele intervir. Desde logo porque a visão que os povos guardarem da História implicará, e muito, nas suas opções presentes e nas perspectivas que abrirão para o futuro. Mas não deixa de ser verdade – uma daquelas de La Palisse – que o passado tem em relação ao presente uma grande vantagem: já aconteceu, os desfechos são conhecidos e as narrativas, mesmo que contraditórias e conflituantes, estão consolidadas. E por mais que a História seja – como é! – um campo essencial da batalha ideológica (sobretudo em tempos de reescrita e revisão), não deixa de ser mais fácil posicionarmo-nos perante o passado do que face aos complexos embates do presente.

Não é tanto dos académicos que falamos: a esses resta-nos desejar que prossigam o seu labor de investigação e análise com honestidade e o máximo de autonomia. Os alvos destas linhas são outros. Os que, afirmando-se de esquerda (ou “progressistas”, para o caso tanto faz), guardam toda a sua clareza para as lutas travadas há muito, sobrando pouca ou nenhuma para as de hoje. Isto é válido para sectores do Partido Democrata norte-americano como para certos partidos portugueses: tão rápidos na exigência de “reparações históricas” e da “descolonização da cultura”, emudece-lhes a voz face à actual ofensiva do imperialismo, com as suas guerras, bloqueios e imposições neocoloniais. Aí já são muitos os “ses” e nenhuma a firmeza…

Recorrendo a retórica mais ou menos criativa sobre o conflito no Leste da Europa, defendem o militarismo e a confrontação tão do agrado da indústria do armamento; perante a agressão militar norte-americana e israelita contra o Irão, vão buscar o “regime”; face às consequências do bloqueio genocida imposto pelos EUA ao povo cubano, lá vem a “democracia”; e nem o genocídio em curso na Faixa de Gaza retira a alguns a pretensão de ditar as formas de luta “aceitáveis” para a resistência palestiniana e de determinar quem poderá ou não governar um futuro Estado da Palestina.

A este propósito, pode ser revelador lembrar que em Maio o governo francês revogou com pompa o “Código Negro”, um decreto do século XVII que regulava a escravatura nas colónias, e admitiu reparações (não necessariamente financeiras) aos países que foram colonizados, ao mesmo tempo que intensifica a ingerência contra as antigas colónias Burkina Faso, Níger e Mali. A primeira acção apaga a segunda? É afinal Macron um progressista?

A exigência dos tempos em que vivemos não admite vacilações ou hipocrisias: a luta pela paz, contra o imperialismo e a guerra, é decisiva e requer firmeza – como a que sobressaiu da Quinta da Atalaia, que este fim-de-semana voltou a ser a capital mundial da solidariedade.



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