- Nº 2756 (2026/09/24)
Um dos muitos temas fora da agenda mediática ocidental dominante são as consequências do bloqueio a Cuba, que dura desde há aproximadamente sete décadas, e do mais recente cerco energético imposto à mesma nação por Donald Trump, datado de Janeiro do corrente ano, e que se mantém em vigor, apesar da sua clara violação dos princípios do direito internacional e da Carta das Nações Unidas. Havana, a capital cubana, vive hoje com apagões de quase 40 horas consecutivas e resto do país até 72 horas. A economia está paralisada, em particular no ramo do Turismo, e o país sobrevive sem as condições mais básicas para o dia-a-dia, como acesso a água, transportes ou recolha de lixo.
Recuperar “Soy Cuba”, filme de 1964, sobre a Revolução Cubana, não é apenas uma vontade cinéfila, nem se justifica apenas pela mestria formal cinematográfica, mas é um acontecimento político que nos permite olhar para esta nação e as suas imensas conquistas, acompanhadas e também ocultadas pela sua luta permanente contra as potências opressoras.
O filme foi preparado durante quatro anos e filmado em dois pelo georgiano Mikhail Kalatozov que contou com fundos provenientes da União Soviética para documentar a Revolução Cubana. Dotado de uma equipa alargada, o cineasta já consagrado, particularmente como documentarista, deslocou-se até Cuba para filmar a mudança de sistema e apresentou o filme concluído em 1964. “Soy Cuba” terá estreado em Havana e em Moscovo assim que ficou concluído, embora não haja registos da sua posterior circulação. Afirma-se que foram os mestres da nova Hollywood, Martin Scorsese e Francis Ford Coppola, que deram uma nova vida ao filme ao redescobri-lo nos anos 1990 e contribuindo para a sua reposição nos cinemas e discussão. Há inclusivamente uma frase lapidar de Scorsese que é agora usada para promover o filme: o cinema (de Hollywood, pressupõe-se) teria evoluído muito mais rapidamente, do ponto de vista estético, se este filme tivesse sido visto antes. Faz-se depender a relevância de um objeto histórico e a sua validação artística e social de uma visão dominante. «Obrigada, senhor Colombo», como agradece ironicamente Cuba no início da narração do filme por ter sido “descoberta”.
“Soy Cuba” foi amplamente discutido na academia e na comunidade cinéfila em meados de 1990 na América Latina, não sabemos se excedeu esse contexto, e foi agora estreado comercialmente em Portugal pela Midas, embora restrito a cinemas de rua e cineclubes e, como tal, a um público caracterizado por uma literacia cinematográfica avançada. Sobre este tópico podemos discutir noutro momento, o problema não tem a ver com a estreia, mas com os hábitos e práticas de distribuição e fruição do cinema no Portugal contemporâneo.
O filme, não obstante o seu percurso errático, é extraordinário. Da perspectiva formal é de uma imensa complexidade, quer pelo deambular frenético da câmara que nos introduz na vertigem da vida das personagens desfasadas da sua realidade e condicionadas pelo regime que as oprime, quer pelos constantes picados e contrapicados e assinalam as desproporções de força, quer ainda pelos dois planos sequência, o que voa do topo de um edifício até mergulhar na piscina no solo, e o que acompanha um funeral e atravessa o seu cortejo, passando pelas pessoas que o integram e planando depois entre e dentro dos prédios ao seu redor.
Serão talvez as suas personagens e situações que o tornam ainda mais magnífico. O vendedor de fruta optimista e a perda da inocência, as mulheres que sobrevivem como prostitutas e a constatação de que não há lugar a ilusões. Os espaços de miséria e degradação não são apenas físicos, mas também morais. No contexto citadino, vemos os estudantes, os intelectuais, que lutam, percebendo da forma mais dura que os actos individuais não bastam e que apenas a organização coletiva os torna capazes de enfrentar a ditadura de Batista. É impressionante a figura do marinheiro norte-americano, a que o cinema de Hollywood tantas vezes recorreu (veja-se “Um Americano em Paris”), como signo de candura e dignidade, que aqui surge corrupto e causador de degradação. O campesinato e os seus trabalhadores compreendem que a força do seu trabalho empenhado e difícil nada pode contra o detentor da terra. Finalmente, é pela força da guerrilha e da coragem dos que de tudo abdicam que surge uma esperança de recomeço.
A marcha final de celebração da vitória assinala a força do povo e a potência da convicção do novo alvorecer.