Enfrentar o elefante na sala
«Não vamos desistir de beliscar os lucros à GALP e fixar o preço da botija de gás em 20 euros. Não vamos desistir desta luta!», afirmou o Secretário-Geral numa sessão do PCP no Catujal, Loures, no dia 25, dedicada a uma proposta do Partido que favoreceria cinco milhões de pessoas em Portugal.
«A mesma bilha, da mesma cor, marca e peso, custa 17 euros em Espanha e 36 em Portugal»
Lusa
Cozinhar, tomar banho, aquecer a água, manter um restaurante aberto – são muitas as actividades quotidianas que exigem a bilha de gás.
No Catujal, localidade de Loures, em pleno coração da Área Metropolitana de Lisboa, o gás canalizado ainda não chegou e a população continua a depender da botija e a penar com os aumentos brutais de preços.
«A mesma bilha, da mesma cor, marca e peso [13kg], custa 17 euros em Espanha e 36 em Portugal», assinalou Paulo Raimundo, no encerramento da sessão, que foi conduzida por Fernanda Santos. Esta dicotomia esteve presente na iniciativa, representada por duas bilhas de gás onde se podia ler os dois valores – o português e o espanhol.
Antes, vários moradores do Catujal expuseram os problemas decorrentes dos preços praticados no País (ver depoimentos).
«Política da porcelana»
Ao longo da sua intervenção, Paulo Raimundo referenciou a incapacidade dos partidos da «política de porcelana» em dar resposta ao problema do custo de vida.
São as forças que discutem tudo, mas ignoram o que realmente importa. «Dizem que o problema são os impostos», exemplificou, esclarecendo que, na realidade, mesmo sem a carga tributária, a botija espanhola seria sempre mais barata que a portuguesa.
O que seria, então, a tal «porcelana»? Paulo Raimundo explicou: «É uma política que pretende manter o elefante fora da sala. E que elefante é esse, que nunca aparece na conversa desses partidos? São os 1312 milhões de euros de lucro da GALP, os 260 milhões de lucro do Pingo Doce, os 800 milhões da EDP e os quatro milhões por dia da banca».
«Amplo movimento»
O Secretário-Geral apelou a um «amplo movimento», que se «alargue cada vez mais», pela aprovação da proposta do Partido de fixação do preço da botija (ver “perguntas e respostas”).
«Não é justo andarmos a carregar às costas os lucros da GALP, da Repsol ou da BP. Já não basta andar com a bilha às costas?! Se conseguirmos alargar este movimento de exigência, a bilha há-de ser mesmo fixada em 20 euros. Não haja dúvida. Independentemente do número de deputados do PCP», asseverou.
«Vida a que temos direito»
O dirigente comunista esclareceu, no entanto, que este «não é um movimento apenas pela botija do gás». Trata-se de um «movimento pela vida a que temos direito», o que implica, afirmou, lutar contra o «aumento brutal» do custo de vida (ver pág. 19).
«São os alimentos, os combustíveis, os preços das casas e das rendas que não param de crescer. E são, também, claro, os lucros que não param de crescer. Com isto tudo, só não crescem mesmo os salários e as pensões», salientou.
Perguntas e respostas
O que propõe o PCP?
Fixar em 20 euros o preço máximo do gás engarrafado em botijas de 13kg. Este passaria a ser o referencial para a fixação do preço de outras variantes e tipologias de garrafas de GPL.
Quem fiscalizaria? Como se actualizariam os preços?
A Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ESRE) ficaria responsável por fiscalizar e propor a actualização anual dos preços, em função de custos como a produção e da variação do Índice de Preços do Consumidor.
Quanto custa a botija de 13kg?
Com o mercado liberalizado, os preços no País são, em média, 36 euros.
E noutros países?
Em Espanha, aqui ao lado, são apenas 17 euros – com lucro!
Mas ainda se usa a botija de gás?
Sim, em mais de 2,2 milhões de casas – cerca de cinco milhões de pessoas, maioritariamente mais pobres. O gás canalizado, mais barato, ainda não chega a todo o País.
Isto não é por causa dos impostos? Ou da guerra?
Não, até porque, de acordo com a ERSE, 50% do preço em Portugal vai para o percurso entre a saída da refinaria e a porta do consumidor.
Mas e o IVA?
Também aí o PCP intervém, ao propor a redução do IVA sobre o “gás engarrafado” para os 6% – a par de medidas como a eliminação da taxa de carbono sobre o GPL.
Depoimentos
«As nossas pensões são pequenas e temos dificuldades. A gente vai a fazer o avio e as coisas estão todas mais caras. Depois vai a bilha e, parecendo que não, 35 euros é muito dinheiro. […] Já não basta o custo de vida, que está tudo muito caro. Podiam aliviar um pouco e diminuir o custo das bilhas.»
«A GALP fornece, também, o combustível para a Espanha, e em Espanha é tudo muito mais barato. São políticas que a gente não entende. […] Só aquilo que vem da bolsa dos ricos para os povos é que faz inflação. Isto dá uma revolta nas pessoas, não é admissível. […] Envergonha a todos!»
«No Catujal, a bilha é a única opção, porque não há gás canalizado. Portanto, estamos sujeitos aos preços dos especuladores. […] Quando esta iniciativa do PCP surgiu, contactámos a população e tivemos grande apoio. Houve até forças políticas que, com medo, tentaram boicotar-nos.»
«Tenho um amigo com um restaurante no Catujal e vejo de perto o esforço para manter o negócio aberto. Uma das despesas que mais pesa é o gás. Uma botija de 45kg custa 130 euros. Para um restaurante onde o gás é indispensável, estes custos têm consequências muito grandes.»
«Eu represento a maior IPSS da zona, a Pomba da Paz. […] Como temos 125 miúdos e 30 idosos, gastamos muito gás. Com a proposta do PCP, pagaríamos 58,5% dos actuais 4262 euros. Seriam 1800 euros que se traduziriam na qualidade da prestação dos serviços!»
«Tenho uma mãe de 94 anos em casa para eu e a minha irmã cuidarmos. Vem aí o inverno e, de três em três semanas, para a mantermos limpa e com dignidade, gastamos duas botijas no esquentador. […] Os apoios sociais não existem. Quem paga? Eu e a minha irmã, não é verdade?!»
«Existem aqueles partidos que gostam muito de fazer teatros no Parlamento – “quem é mais aldrabão”, “quem é mais defensor do povo”… Mas depois, na altura certa, é sempre o PCP a defender-nos. […] Mais do que falar de dinheiro, acho importante falar de vidas humanas, de pessoas.»




