«As eleições de Outubro serão decisivas para o futuro do Brasil»

Eleições de 2026, projecto de desenvolvimento, multipolaridade e fim da escala 6x1 foram os principais temas de uma entrevista concedida ao Avante! por Tiago Alves, dirigente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) em Minas Gerais e membro das comissões nacionais de Cultura e de Juventude do partido.

«Defendemos um novo projecto nacional de desenvolvimento»

O PCdoB integra a coligação que procura reeleger Lula. Porque consideram importante esta reeleição? O que está em causa?

As eleições de Outubro serão decisivas para o futuro do Brasil. A vitória de Lula em 2022 permitiu interromper o ciclo regressivo – golpe contra Dilma, prisão de Lula e governo Bolsonaro. O país retomou políticas sociais, investimentos públicos, valorização do salário mínimo, política industrial, ciência e tecnologia, cultura e uma política externa altiva. Sobretudo, derrotámos a extrema-direita nas urnas.

Mas uma nova vitória não pode significar mais do mesmo: deve inaugurar um novo momento para o país. Defendemos um novo projecto nacional de desenvolvimento capaz de combinar soberania, desenvolvimento, democracia e progresso social, com “reformas estruturais” como a democratização do Estado, a reindustrialização, uma tributação mais progressiva e a valorização do trabalho.

Para avançar nessa direcção, não basta eleger Lula. Isso é só o início de um processo.

Os EUA estão a tentar interferir no Brasil e na América Latina. Como é que o Brasil se posiciona face ao imperialismo?

Vivemos uma mudança na ordem internacional. A emergência de novos pólos de poder abre possibilidades para uma certa multipolaridade. Ao mesmo tempo, os EUA procuram preservar sua hegemonia e voltam-se para a América Latina e Caraíbas.

O Brasil tem um território continental, água, petróleo, minerais estratégicos… Existem enormes interesses em torno das nossas riquezas e das decisões soberanas do país. A defesa da democracia e a vitória de Lula está profundamente ligada à defesa da soberania. A extrema-direita brasileira está conectada internacionalmente. Enfrentá-la exige defender o direito de o Brasil de escolher o seu rumo.

Mas não acreditamos que essa batalha possa ser vencida por cada país isoladamente. A integração latino-americana e caribenha é estratégica, e não pode ser só entre diplomatas: precisamos construir um sentimento regional de pertença.

Temos uma responsabilidade especial nesse processo. Um Brasil soberano, democrático, integrado à América Latina e participante activo do BRICS pode contribuir decisivamente para uma ordem internacional mais equilibrada.

O Brasil debate a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas e a substituição da escala 6x1 pela 5x2 (cinco dias de trabalho, dois de descanso). Qual a importância desta luta para os trabalhadores e para o Brasil?

Essa é uma das lutas mais importantes das últimas décadas para os trabalhadores. O movimento pelo fim da 6x1 conseguiu transformar uma realidade quotidiana de milhões de trabalhadores em uma questão política nacional. Estamos falando de pessoas que trabalham seis dias para descansar um!

A proposta, aprovada na comissão do Senado e que será votada após o primeiro turno das eleições, estabelece a redução gradual da jornada, sem perda salarial, e dois dias de descanso por semana. Para nós, é um avanço muito importante e sua aprovação precisa ser uma grande batalha política e social. Defendemos, inclusive, o horizonte das 35 horas semanais.

O trabalho deve estar no centro de um novo projecto de desenvolvimento. Os ganhos de produtividade com a ciência e tecnologia não podem ser apropriados apenas pelo capital. Precisam chegar aos trabalhadores com salários, direitos e tempo para viver.

Portanto, essa não é apenas uma discussão sobre quantas horas existem numa semana de trabalho. É uma disputa sobre quem se beneficia do desenvolvimento do país.

 



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