- Nº 2757 (2026/10/1)
Os discursos de Trump e Netanyahu na AG das Nações Unidas foram ainda mais longe na infâmia e soberba, entrando no domínio do inqualificável. Perpassados pela fanfarrice e demagogia, quando não a pura patranha, não há como lhes retirar gravidade, pelo que representam de criminoso e fascistização do quadro internacional – absolutamente nos antípodas das aspirações dos povos à paz e a um mundo mais justo, que encontre respostas para os problemas mais prementes que afectam a Humanidade. Marcam, em especial, um momento sinistro para a ONU e os princípios consignados na sua Carta, e representam uma das páginas mais negras desde a sua fundação, em 1945, nas ruínas da derrota do nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial. Confirmam o estádio de subversão da ordem internacional, fixado no discurso de despedida do Secretário-Geral, António Guterres, na abertura dos trabalhos.
É óbvio que o espezinhar do direito internacional e as pretensões “revisionistas” do imperialismo contam com uma longa história e se intensificaram após 1991, embora os epígonos do pensamento dominante insistam em aplicar o termo aos países do CS que rejeitam a postura excepcional dos EUA e o primado da hegemonia das “potências ocidentais”. Basta lembrar o incumprimento, há décadas, das resoluções da ONU sobre a Palestina, as guerras de agressão contra a Jugoslávia, Iraque e Líbia, a prática da multiplicação das sanções arbitrárias, aliás, associada ao embuste do “mundo baseado em regras”, tornado lugar-comum na boca de Biden-Blinken e dos responsáveis da UE e G7. Esta é a rampa de lançamento para se chegar ao genocídio em Gaza e ao terrorismo de Estado sem máscara. Na ONU, tão grotesco quanto aviltante, Trump voltou a ameaçar o Irão com uma «aniquilação rápida» – insinuando o uso da arma nuclear –, vangloriou-se pelo sequestro de Maduro, presidente da Venezuela, frisando que «os despojos pertencem ao vencedor», isto é, o petróleo e riquezas do país, e reafirmando o domínio absoluto dos EUA, pela força se necessário, no “quintal” da América Latina. Ao atacar Cuba, voltou a exibir o anticomunismo cavernícola e apontar o dedo ao “inimigo interno”, o que traz à memória o pior dos tempos do maccarthismo. Por sinal, ao contrário do discurso demencial na sede da ONU, dois dias depois, no jantar na Casa Branca perante Xi Jinping, Trump elogiou o estado das relações com a China, apesar da existência de «diferentes sistemas». De facto, os EUA não podem evadir a complexidade da relação com a China, pivot da rearrumação global. Ao recuo na frente tarifária, soma-se o insucesso da guerra lançada por Trump ao Irão. Os sinais de alarme na economia avolumam-se com a espiral de endividamento e a subida dos juros, à porta das eleições intercalares. Além das dificuldades conjunturais, Washington depara-se com os dilemas do declínio e o exacerbar de contradições insanáveis.
Apesar da concentração capitalista atingir níveis inauditos, a expansão unipolar do sistema dá lugar a um regime de fragmentação e contracção, essencialmente reaccionário. Trump é expressão e veículo deste processo. Manter os privilégios exorbitantes do dólar e dominação impele os EUA numa fuga para a frente de militarismo, extorsão e pilhagem, exigindo também a submissão e «sacrifício» dos países aliados. A prepotência do imperialismo é o reflexo do quadro, incerto e instável, da sua crise estrutural.