- Nº 2757 (2026/10/1)
Foi um homem em desespero, entre o raivoso e o alucinado, aquele que no dia 24 de Setembro último tomou a palavra na Assembleia Geral da ONU na qualidade de primeiro-ministro do Estado de Israel. Insultou, praguejou, intimidou. De pager em riste, Netanyahu confessou o que todos já sabiam, mas que Israel sempre recusara admitir: a autoria do atentado terrorista no Líbano, em 2024 – do qual resultou a morte de 42 pessoas e ferimentos em cerca de 3500, muitas com incapacidades permanentes, algumas crianças –, numa ameaça pouco velada lançada ao mundo.
À hora em que escrevo estas linhas, três dias decorridos da sessão anual da Assembleia Geral da ONU, Gaza e a Palestina estão no centro dos debates. E não falo apenas do abandono das delegações durante o discurso de Netanyahu. Do Rei da Jordânia ao Presidente francês, a generalidade das intervenções censura a política de Israel e alerta para o prolongamento da catástrofe humanitária em Gaza. Volvidos três anos da campanha militar genocida que prossegue em Gaza e uma ofensiva de rara violência para forçar a expulsão da população palestiniana da Margem Ocidental, dir-se-ia que o Estado de Israel está política, diplomática e economicamente isolado e sob uma pressão internacional insuportável para acatar as inúmeras resoluções das Nações Unidas a que está obrigado, além dos acordos que ele próprio firmou e que desrespeita, a começar pelo cessar-fogo em Gaza e, já agora, também no Líbano.
Não é, porém, isso que acontece. Afinal, Netanyahu pôde subir à tribuna na Assembleia Geral da ONU, mas o presidente da OLP, que é simultaneamente presidente da Autoridade Nacional Palestiniana, foi impedido de o fazer pelo presidente dos EUA e tal não gerou protestos por aí além. Com a aproximação das eleições no final de Outubro em Israel – de onde acaba de ser excluída, por decisão judicial, a Frente Democrática para a Paz e a Igualdade (Hadash), em que se integra o Partido Comunista de Israel, e os partidos “árabes” – Netanyahu parece, é certo, ser uma companhia indesejada, até para Trump. Declarações recentes como aquela proferida por ministros dos Negócios Estrangeiros de 12 países, entre os quais Portugal, prometendo impor restrições ao comércio de bens com os colonatos, reflectem o incómodo desses países relativamente ao comportamento de Israel1.
Todavia, perante a dimensão da catástrofe humanitária que se vive em Gaza, sem precedentes segundo a ONU, exige-se muito mais. Tais medidas parecem mais orientadas para responder ao protesto insistente dos que por todo o mundo dão voz à solidariedade com a causa nacional do povo palestiniano do que para produzir efeitos reais na pressão sobre Israel. O que continua a imperar é ainda a tibieza, a duplicidade, quando não a cumplicidade. A título de exemplo, a União Europeia, o maior parceiro comercial de Israel, continua a manter intacto o acordo de associação que mantém com Israel, assim como a cooperação no âmbito do programa Horizon. É este estado de coisas que garante a Netanyahu e aos seus representantes diplomáticos – veja-se o comportamento inaceitável do embaixador de Israel em Lisboa – toda a impunidade para a sua conduta violenta e abusiva, em flagrante e aberto conflito com o direito internacional.
Com cerca de 4790 violações do acordo de cessar-fogo documentadas ao longo de perto de um ano, cerca de 1400 pessoas foram mortas e perto de 4800 feridas2. Enquanto se pavoneava entre as suas tropas estacionadas no território ocupado, o ministro da Defesa de Israel gabou-se de ter expulsado a população palestiniana de 70 por cento da Faixa de Gaza e prometeu “terminar o trabalho” em breve3.
A assistência humanitária que entrou na Faixa de Gaza não chega a 40 por cento do que está estabelecido. A fome e as doenças continuam a grassar entre uma população fragilizada por um bloqueio que leva perto de 20 anos e por sucessivas campanhas militares, a última das quais absolutamente devastadora. Os campos agrícolas foram queimados, tornados improdutivos, e a agricultura é hoje inviável. O acesso ao mar, o outro recurso fundamental na economia do territórios, é vedado pelo exército de Israel. Mais de dois milhões de pessoas foram submetidas à absoluta miséria e colocadas na total dependência da ajuda internacional que, ainda assim, Israel bloqueia. Na região do mundo onde se acumula o maior número de crianças amputadas em toda a história moderna, perto de mil cadeiras de rodas oferecidas por organizações humanitárias australianas estão depositadas, desde Fevereiro de 2025, em armazéns na Jordânia, porque Israel não autoriza a sua entrada em Gaza4. Coisas tão elementares como sanitas são consideradas, por Israel, objectos de duplo uso, e por isso impedidos de entrar em Gaza5. Sem meios – porque os equipamentos e maquinaria continuam impedidos de entrar no território –, equipas de voluntários continuam a trabalhar, levantando, às centenas, corpos de pessoas soterradas nos escombros dos edifícios atingidos pelos bombardeamentos.
Na Margem Ocidental, o clima que se vive é de extrema violência, e a aproximação da época da colheita da azeitona faz prever que ela pode ainda agudizar-se. No seu mais recente relatório, divulgado há poucos dias, a organização israelita de direitos humanos B'Tselem fala do que designa como uma operação de «eliminação» destinada «a desmantelar, de forma rápida e sistemática, os fundamentos da existência palestiniana». Como o dito relatório sublinha, o que está em causa não é uma crise temporária, mas «a aceleração de um projecto contínuo de eliminação»6.
Nesse processo, assume uma importância estratégica o projecto de colonização promovida por Israel numa área da Margem Ocidental designada como E1. A concretizar-se, tal projecto implicaria a eliminação de 22 povoações palestinianas, mas sobretudo separaria Jerusalém Oriental – território ocupado e capital do estado da Palestina – do conjunto da Margem Ocidental, eliminando do mesmo passo a continuidade deste território, que ficaria separado em duas metades. Cerca de mil pessoas foram já desalojadas para a concretização deste projecto, mas esse número pode ultrapassar as sete mil. A determinação do governo de Netanyahu em acelerar a concretização deste plano foi, aliás, o motivo próximo para a declaração dos 12 ministros dos Negócios Estrangeiros.
Entretanto, ao contrário do que se ouve da boca de muitos dirigentes europeus, incluindo de responsáveis do governo português, o plano em causa está muito longe de ser um sonho louco dos ministros Ben Gvir e Bezalel Smotrich ou das organizações de colonos que eles representam. Na verdade, o primeiro arquitecto do plano E1 foi, nem mais nem menos, Yitzhak Rabin, do Partido Trabalhista, hoje incensado como um defensor da paz, esquecidos que estão os tempos em que, como ministro da Defesa, ordenava aos militares que comandava que quebrassem os braços dos jovens palestinianos durante a primeira Intifada. Pois bem, os primeiros passos para a concretização daquele projecto foram dados justamente em Julho de 1994, ou seja, menos de um ano depois da data em que aquele mesmo dirigente de Israel colocava a sua assinatura, junto com a de Yasser Arafat, nos acordos de Oslo. Desde então, com mais ou menos velocidade, ele esteve na agenda de todos os governos de Israel, independentemente dos respectivos arranjos partidários.
O plano E1 evidencia algo que os agentes da propaganda de Israel espalhados pela comunicação social fazem por ocultar. O genocídio em Gaza, a colonização em curso na Margem Ocidental, não são uma fixação de Netanyahu, nem da corte de fascistas que o rodeia, mas, como sublinha o relatório do B’Tselem, parte de um plano que vem dos primórdios da fundação do Estado de Israel e desde então concretizado, visando a limpeza étnica da Palestina e a extensão das fronteiras rumo ao Grande Israel. Assim se entende o avanço da ocupação e a tentativa de colonização do Líbano, assim como idêntico processo na Síria. Netanyahu reafirmou aliás, da tribuna da Assembleia Geral da ONU, as pretensões de Israel quanto à ocupação e anexação dos Montes Golã.
É por isso que a solidariedade com a causa nacional do povo palestiniano constitui uma exigência maior do nosso tempo. No próximo dia 10 de Outubro, ela sairá à rua de novo, um pouco por todo o mundo, e em Lisboa também, numa convocatória subscrita pelo MPPM, o CPPC, a CGTP-IN e a Associação Projecto Ruído, a que se juntam muitos outros colectivos e associações. Para reafirmar a defesa dos direitos nacionais do povo palestiniano, o fim do genocídio e da colonização, e exigir do governo português uma política consistente e materialmente efectiva de defesa dos direitos do povo palestiniano e de responsabilização e isolamento de quem dia-a-dia os espezinha.