- Nº 2759 (2026/10/15)

A solidariedade com a Palestina voltou a fazer-se ouvir. Bem alto!

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A solidariedade com a Palestina voltou a fazer-se ouvir – e bem alto. No sábado, foram muitos os que saíram às ruas da capital para exigir o fim do genocídio e da ocupação, denunciar os crimes de Israel e a cumplicidade dos EUA, da UE e do Governo português e reivindicar o respeito pelos direitos nacionais do povo palestiniano e a criação do Estado da Palestina independente e soberano. Até a Palestina ser livre, a solidariedade vai continuar, afirmou-se nesta acção convocada por CPPC, CGTP-IN, MPPM e Projecto Ruído e promovida por mais de 60 organizações.

Foi uma imensa massa de gente que no sábado, 10, tingiu o Chiado e a Baixa de Lisboa com as cores da solidariedade com a Palestina. Havia bandeiras palestinianas, muitas e de tantos tamanhos, estandartes de várias organizações, faixas e cartazes com palavras de ordem pelo fim do genocídio e da ocupação – e, também, denunciando a cumplicidade do Governo português com os crimes sionistas e exigindo que o reconhecimento do Estado da Palestina não seja apenas um acto simbólico, tendo de ser acompanhado de acções concretas que visem a sua concretização.

Ao longo do percurso, que uniu a Praça Luís de Camões ao final da Rua do Carmo (que ficou cheia do início ao fim), afirmou-se que a «Palestina vencerá!» e que a solidariedade não vai parar até que o Estado da Palestina independente e soberano seja finalmente uma realidade. Saudando a manifestação, o Secretário-Geral do PCP reafirmou que «não nos podemos calar perante um genocídio que continua». Paulo Raimundo denunciou que, apesar do cessar-fogo fogo que vigora há quase um ano, palestinianos continuam a ser mortos pelos militares israelitas e a estar privados de água, alimentos, cuidados de saúde e educação. Para o dirigente comunista, aquela manifestação constituía uma enorme demonstração de que é preciso, de uma vez por todas, respeitar os direitos do povo palestiniano e criar o seu Estado, exigindo-se mais do Governo a este respeito.

No final, intervieram diferentes vozes, de organizações e pessoas que se unem na solidariedade com a Palestina. Apresentado pelo jovem actor Rafael Balão, da companhia 100 DRAMAS (que recentemente levou à cena “O Meu Nome é Rachel Corrie”, denúncia do assassinatodesta activista norte-americana pelas forças israelitas), o momento contou com as intervenções de Julieta Almeida, dos Parents for Peace; Alan Stoleroff, da associação Judeus pela Paz e a Justiça; o autor Filipe Homem Fonseca; a palestiniana residente em Portugal Serenah Rabat; e a actriz Maria João Luís, que leu uma intervenção em nome das organizações promotoras.

A manifestação terminou com todos a cantar, a uma só voz e num imenso abraço de solidariedade, “Grândola, Vila Morena”, senha da Revolução de Abril, que apontou o País a um caminho de paz, progresso social e amizade com todos os povos.

Do cinema para a rua
Na véspera, no Porto, uma imensa bandeira palestiniana foi desfraldada à noite junto à Câmara Municipal por muitos dos que, momentos antes, visualizaram o filme “Naza” no cinema Trindade, numa sessão de solidariedade promovida igualmente por CPPC, CGTP-IN, MPPM e Projecto Ruído. Antes do filme, o professor Rui Pereira fez uma intervenção.


«O que acontece em Gaza, na Palestina, é o sintoma mais evidente da tentativa de imposição de uma ordem mundial fundada na lei da violência, da agressão, do absoluto desrespeito pelos princípios da Carta das Nações Unidas e do direito internacional, que deveriam proteger todos os povos e Estados, independentemente da sua dimensão, capacidade económica ou militar. Exigir o fim da ocupação, o fim dos colonatos e da violência contra o povo palestiniano, o fim dos ataques e a garantia de ajuda humanitária sem restrições, é afirmar que não aceitamos que, da Palestina a Cuba, alguém possa ditar as regras consoante os seus inaceitáveis propósitos de domínio e condicionar a existência de povos inteiros.»
Intervenção conjunta das organizações promotoras da manifestação, lida pela actriz Maria João Luís

«Estamos aqui, o colectivo Judeus pela Paz e Justiça, para manifestar a nossa solidariedade enquanto judeus ao povo palestiniano. O presente genocídio cometido por um Estado que pretende ser o Estado judeu é uma mancha indelével na história do povo judeu que teremos que levar connosco, juntamente com o nosso passado de perseguição e extermínio. Dizemos “não em nosso nome!”. Dizemos que “nunca mais” significa “nunca mais para ninguém”!»
Alan Stoleroff, Judeus pela Paz e a Justiça

«Digo que sou uma cristã palestiniana porque quero deixar uma coisa clara: esta não é uma guerra religiosa, é apartheid. Muçulmanos, cristãos e ateus palestinianos enfrentam o mesmo checkpoint, a mesma violência e a mesma expulsão das suas terras. Quando estava em Belém, um amigo olhou para mim, depois de horas num checkpoint, e disse simplesmente: “Já estamos habituados.” (…) Quando a sobrevivência se torna rotina, a injustiça começa a parecer normal. E não podemos deixar que isso aconteça.»
Serenah Sabat, palestiniana a residir em Portugal

«Bastam três segundos para matar uma criança. Dezenas de crianças. Famílias inteiras. O tempo de carregar o botão. O mundo já deu três anos para que pessoas confortavelmente sentadas em gabinetes carreguem em botões. Três anos de um jogo obsceno de morte, destruição e sofrimento. Três anos de saque, perseguição e terror. Três anos que se seguiram a muitas décadas de ocupação e violência. Três anos de crimes transmitidos em directo, com total impunidade. Mas não sem indignação. (…) As nossas vozes fizeram-se ouvir.»
Julieta Almeida, Parents for Peace

«Falemos mais alto. Palavras de ordem pela protecção de inocentes e de crianças inocentes, como são todas as crianças. Palavras de denúncia contra a desumanização, contra o apartheid, contra a privação de alimentos, de água potável, de habitação, contra a deslocação forçada, contra o bloqueio da ajuda humanitária, contra a arquitectura do controle que transborda para a Europa e para o Oeste através de medidas repressivas cada vez mais representativas do fervor colonialista que só, ingenuamente, poderíamos pensar extinto.»
Filipe Homem Fonseca, autor

«Uma última palavra para dizer que nada disto foi um acto tresloucado. A associação entre o humano e a loucura para conseguir enquadrar mentalmente a abjecção e a infâmia é um recurso muito comum de autodefesa. Não, o que se passou e continua a passar em Gaza é produto de uma doutrina militar baseada na impossibilitação da vida numa zona confinada de ataques militares visando infra-estruturas civis e a sobrevivência dos que escapam à acção militar directa.»
Rui Pereira, professor

 

 

Marco Rubio não é bem-vindo a Portugal!

Na véspera da visita a Portugal do Secretário de Estado norte-americano, o CPPC promoveu uma concentração em Lisboa sob o mote «Marco Rubio não é bem-vindo a Portugal! Fim ao genocídio do povo palestiniano!, Fim à agressão a Cuba!, Paz no mundo!, Não à guerra!»

Em cartazes, faixas e palavras de ordem reafirmou-se a defesa da paz – «Guerra, bloqueio e agressão, ao imperialismo dizemos Não!», «Para a guerra vão milhões, para os povos só tostões» – e a solidariedade aos povos – «Em cada cidade, em cada esquina, somos todos Palestina!», «Estados Unidos, prestem atenção, Cuba resiste à vossa agressão». A reconhecida submissão do Governo português à política externa dos EUA, foi igualmente denunciada: «Soberania Sim! Vassalagem Não!»

Disto mesmo falou Isabel Camarinha, do CPPC, que lembrou os elogios do próprio Marco Rubio ao Governo português pela sua vergonhosa submissão, evidente na utilização da Base das Lajes para o ataque dos EUA e Israel contra o Irão. Em sentido contrário, realçou, exige-se do Governo a afirmação da soberania e independência nacional, o cumprimento da Constituição da República, a defesa da paz, da segurança, da cooperação, da soberania e dos direitos dos povos.

Antes, já Filipa Vedes, da Associação de Amizade Portugal-Cuba, denunciara o permanente agravamento do bloqueio a Cuba, com o anúncio de novas sanções contra entidades e responsáveis cubanos, com graves efeitos sobre a população. Porém, afirmou, «o futuro de Cuba não será decidido em Washington, não será decidido por Donald Trump, não será decidido por Marco Rubio. O futuro de Cuba pertence ao povo cubano».

Numa acção apresentada por Mariana Metelo, do Projeto Ruído, a primeira intervenção foi de José Oliveira, do MPPM, para quem o reforçado apoio político, diplomático e militar dos EUA a Israel faz desse país co-autor do genocídio. O reconhecimento por Portugal do Estado da Palestina, acrescentou, «não pode ficar limitado a um puro gesto diplomático». Pelo contrário, terá de significar a retirada de «todas as consequências políticas e jurídicas desse reconhecimento».

PCP repudia visita de Marco Rubio 
O PCP, que se solidarizou com a acção de dia 7, emitiu no dia seguinte uma nota de imprensa (disponível em www.pcp.pt/sobre-visita-de-marco-rubio-portugal) sobre a visita a Portugal de Marco Rubio, considerando-o «um dos principais responsáveis pela criminosa política de confrontação, agressão e guerra promovida pelo imperialismo norte-americano, que ataca a soberania e os direitos dos povos e desrespeita abertamente os princípios da Carta da ONU e do direito internacional».

Esta política, acrescenta, «visa impor a dominação dos EUA no plano mundial» e é responsável pelo «colossal aumento dos gastos militares e por uma escalada armamentista e de guerra que representa a maior ameaça à paz e à segurança mundiais». A mesma política que agrava a exploração, as injustiças e desigualdades, ataca liberdades e direitos, fomenta concepções e forças reaccionárias, obscurantistas e fascizantes, agride e procura criminalizar os que legitimamente defendem a liberdade, os direitos, a justiça, a igualdade, a paz, a solidariedade.

Para o PCP, a visita de Marco Rubio a Portugal expõe ainda o «vergonhoso alinhamento e subordinação do Governo PSD/CDS aos EUA».