- Nº 2759 (2026/10/15)

Capitalismo, militarismo e luta

Opinião

As incertezas e os perigos que pesam sobre a evolução mundial continuam a avolumar-se. Sendo significativo que na própria classe dominante cresça a inquietação e até desorientação perante as dificuldades e contradições que atravessam o mundo capitalista – veja-se a aflição de tantos comentadores do sistema perante os destinos da União Europeia –, a verdade é que o fascismo avança às cavalitas do neoliberalismo e os tambores da guerra falam cada vez mais alto. As palavras “paz”, “desarmamento”, “combate ao subdesenvolvimento”, “coexistência pacífica” foram praticamente banidas do léxico dos dirigentes do mundo capitalista e nos média ao seu serviço. Aquilo a que assistimos, a par de um revisionismo histórico que banaliza os crimes do fascismo, é a uma galopante promoção do militarismo e a uma assumida campanha de preparação da opinião pública para a guerra. A paranóia sobre a “ameaça russa”, alimentada diariamente por episódios daquilo a que chamam “guerra híbrida”, em geral sem qualquer credibilidade, aí está a demonstrá-lo.

Para que os povos se não revoltem perante o ataque aos seus direitos e condições de vida exigido pela corrida aos armamentos liderada pelos EUA, e a que as potências da UE caninamente se submetem, é preciso assustá-los. É necessário que ninguém pense que os povos dos países mais distantes das frentes de guerra estão ao abrigo da “ameaça russa”. Já não basta invocar “obrigações” determinadas por tratados de submissão às grandes potências imperialistas, como no caso de Portugal em relação à NATO e à UE, é preciso meter-lhes medo. E aí temos páginas e páginas (Correio da Manhã, 25.09.26 ou Sábado, 30.09.26) com mapas mostrando minuciosamente como países como a Espanha, a Itália e a França estariam “ameaçados” de bombardeamento por disfarçados navios russos a partir do Mediterrâneo. E como para os campeões do militarismo doméstico Portugal não pode considerar-se ao abrigo da dita “ameaça”, aí temos de novo Gouveia e Melo a torcer pela corrida às armas, alertando para que no mar Portugal “está mais perto da Rússia do que a Polónia” (Euronews, 01.10.26).

Na comunicação social, com particular destaque para a CNN Portugal, logo secundada pelos restantes canais televisivos, a promoção da deriva belicista é avassaladora. Não nos devemos entretanto deixar cegar pelas vicissitudes da conjuntura internacional e perder de vista que esta perigosíssima deriva belicista – como o XXII Congresso do PCP já sublinhou – tem as suas raízes no aprofundamento da crise estrutural do capitalismo, na acentuação brutal do seu carácter parasitário, na sua incapacidade para produzir a riqueza que o desenvolvimento impetuoso das forças produtivas permitiria, na intensificação da exploração no plano interno e na pilhagem no plano externo. Tendências que trazem no bojo o fascismo e a guerra, mas que simultaneamente encontram pela frente a crescente resistência dos trabalhadores e dos povos. A par de muitas outras lutas que têm tido lugar por esse mundo fora, incluindo em Portugal, as grandes manifestações em França traduzem uma forte rejeição das políticas ditas de “austeridade” com que o grande capital pretende atirar para cima dos trabalhadores os custos do militarismo e da crise com que se debate.

O capitalismo nada mais tem para oferecer aos povos senão a exploração, a opressão e a guerra.

Albano Nunes