- Nº 2760 (2026/10/22)

Guerra e pão

Opinião

Espalham-se pelo continente europeu os protestos populares contra as políticas anti-sociais. É positivo e importante. São os povos que escrevem a História. As motivações que desencadeiam os protestos podem parecer diferentes. Em França, os cortes orçamentais à educação pública. Em Espanha, os despejos e a habitação. Na Alemanha, os despedimentos em massa na indústria automóvel e a tentativa de impor o serviço militar obrigatório para mandar a juventude morrer pela BlackRock. Em Portugal, o pacote laboral, os salários e o custo de vida, incluindo da habitação. Mas há uma raiz comum a tudo isto: as políticas ao serviço do grande capital financeiro. E o belicismo com que tentam impor a sua dominação mundial. Todos os dias anunciam-se muitos milhares de milhões para alimentar a guerra e a corrida às armas. Trump exigiu aos países da NATO que aumentem as despesas militares para 5% do PIB, e estes obedecem. É o que está em discussão também no orçamento da UE. O dinheiro que dizem não existir para resolver problemas sociais existe sempre para alimentar a máquina da morte. A ligação é proclamada abertamente. No ano passado, o Secretário-Geral da NATO foi ao Parlamento Europeu dizer que «os países europeus facilmente gastam até um quarto do seu rendimento nacional em pensões, sistemas de saúde e segurança social, e só precisamos duma pequena parte dessa verba para tornar a defesa muito mais forte» (politico.eu, 13.1.25). O primeiro-ministro alemão Merz diz que «o Estado do bem-estar que temos hoje já não pode ser financiado com aquilo que produzimos na economia» (dw.com, 23.8.25), mas dias depois manda o seu ministro das Finanças à Ucrânia para prometer, em nome da Alemanha, «9 mil milhões de euros por ano, durante os próximos anos» (interfax.com, 26.8.25). A “transição ambiental” vira transição bélica. O “Estado Social” vira Estado de Guerra. Pode não haver paz, pão, educação, saúde, habitação, segurança social. Mas não dispensam mísseis, aviões e canhões. E, claro, os respectivos e chorudos lucros privados, apesar das despesas serem públicas.

Na comunicação social de regime os protestos populares são associados à violência. Enquanto decorriam pacificamente nas ruas de Portugal as grandes manifestações da CGTP-IN, os nossos canais ‘noticiosos’ enchiam os ecrãs com imagens de violência em França. É uma forma de esconder a grande dimensão de massas de protestos, cá e lá (até a polícia francesa fala em 550 000 manifestantes). Mas também de tentar justificar a repressão. A violência é sempre atribuída aos manifestantes, mesmo quando abundam imagens de violência gratuita iniciada pela polícia do regime de Macron para quem vale tudo, incluindo arrancar olhos (à semelhança do que aconteceu nos anteriores protestos dos coletes amarelos e dos sindicatos). Actos de vandalismo – incluindo de provocadores infiltrados – são condenados em tom agressivo. Mas essa mesma violência é saudada entusiasticamente quando os manifestantes fazem parte de ‘revoluções coloridas’ ao serviço do imperialismo, como aconteceu em Janeiro no Irão, abrindo caminho ao ataque israelo-norte-americano de Fevereiro. Para acabar com a violência, comecem por pôr fim ao genocídio na Palestina, à agressão ao Irão, à guerra na Ucrânia. E invistam os biliões que pouparem da guerra na saúde, habitação, ensino, pão. Mas o sistema capitalista não existe para servir os povos. E por isso precisa de usar da violência, internamente e externamente. Só a luta dos povos pode mudar as coisas.

 

Jorge Cadima