- Nº 2761 (2026/10/29)

Luta pela paz é indissociável da luta por melhores salários e os direitos

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No domingo, dia 25, o Porto foi palco de luta, debate e solidariedade internacionalista. Sob o lema «Salários, direitos, paz», dois debates, uma manifestação e um comício deram provas de verdade à profunda interligação entre a luta por melhores salários e pensões, por direitos, por melhores condições de vida e a luta pela paz, a soberania, cooperação, justiça e a igualdade no mundo. A iniciativa realizou-se no âmbito do Grupo Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Verde Nórdica – A Esquerda no Parlamento Europeu e contou com a participação de convidados internacionais.

«A luta pela paz, por direitos, por salários justos é uma luta que une povos de diferentes pontos do mundo, em diferentes circunstâncias e com diferentes realidades nacionais», começou por salientar João Oliveira, deputado do PCP no Parlamento Europeu (PE) e membro da Comissão Política do Comité Central, o primeiro a usar da palavra no comício internacional, que se realizou durante a tarde de domingo na Concha Acústica dos jardins do Palácio de Cristal. «É uma luta», continuou, que «une povos que se batem contra o imperialismo norte-americano que espezinha a soberania, que usa a guerra como instrumento para manter o seu domínio hegemónico, que promove uma política de saque e pilhagem de recursos, de intensificação da exploração de quem trabalha, de agudização das desigualdades e injustiças sociais, de negação das mais básicas condições de vida a uma parte significativa da humanidade».

É uma luta, acrescentou, que une, igualmente, os povos que se batem contra as políticas neoliberais, federalistas e militaristas da União Europeia (UE). Políticas essas que «confirmam a UE como um espaço de domínio das potências europeias e das multinacionais, configurado à medida dos seus interesses e em contradição com os direitos de quem trabalha, a soberania dos povos, um ambiente ecologicamente equilibrado e com o desenvolvimento nacional».

Que ninguém abdique de direitos e da paz

As primeiras palavras de Paulo Raimundo, Secretário-Geral do PCP, cuja intervenção encerrou o comício, foram dirigidas aos convidados internacionais: «Levem convosco a solidariedade do PCP com a luta que travam em prol dos vossos povos, levem também daqui a luta que travamos em Portugal por melhores salários e pensões, por melhores condições de vida, em defesa do direito à habitação, à saúde, educação, de todos os direitos».

«Sabemos que os que fazem a apologia do militarismo, do aumento dos gastos com os armamentos, da guerra, são os mesmos que querem impor o agravamento da exploração, das injustiças e desigualdades sociais», salientou.

«Sabemos o que querem e sabemos qual a resposta que temos e lhes estamos a dar», saudando os trabalhadores, a população, estudantes e jovens pela sua resposta a esta ofensiva que se tem traduzido em grandes acções de luta e mobilização por diversos países, desde logo na Europa. «Essa luta que, a partir das realidades e condições concretas em cada país, enfrenta a política que empurra a maioria para as dificuldades, ao mesmo tempo que garante privilégios para uma pequena minoria», afirmou.

«Que ninguém troque casas para viver, escolas, hospitais, professores, cultura, médicos, salários, creches, pensões, saúde, pelo militarismo, que ninguém abdique da paz e a troque pela loucura da guerra», apelou.

Juventude na luta pelo que é seu

Por parte dos jovens comunistas falou Carolina Gonçalves, da Direcção Nacional da JCP, enumerou os muitos momentos de luta, em torno dos quais a juventude portuguesa se tem mobilizado. «É hora de transformar o mundo, de não aceitar as injustiças, a exploração, a morte e as guerras do capitalismo. Esse não é o caminho que queremos para o nosso país e para o mundo. Aqui deixamos a certeza que a juventude não vai parar, não vai desistir e vai continuar a lutar para derrotar a política de direita e para construir o mundo novo com que sonhamos», afirmou.

Um vivíssimo momento musical antecedeu o momento político, oferecido por La família, um grupo composto por uma família luso-cubana.

 

Habitação e educação em debate

Durante a manhã, ainda na Rotunda da Boavista, realizaram-se dois debates que expuseram, de forma expressiva, as crescentes dificuldades enfrentadas pela população no acesso à habitação e, pelos jovens, no acesso à educação. No primeiro participaram João Gonçalves, Joana Rodrigues, Fátima Pinto, Raquel Ferreira e André Araújo. Já no segundo, estiveram Lurdes Ribeiro, Maria Rita Pinto, Vitória Carvalho, Renata Madureira e Rui Rodrigues.

Para além dos momentos de discussão, de convívio e almoço, realizaram-se ainda actividades para crianças, com pinturas faciais, experiências científicas e jogos tradicionais.

 

Desfile afirma determinação do PCP na luta por uma vida melhor

Pouco depois da hora de almoço, muitas centenas integraram a manifestação que partiu da rotunda da Boavista em direcção aos jardins do Palácio de Cristal. Entre as bandeiras vermelhas, diferentes palavras de ordem e faixas esclareciam os mais curiosos que se cruzaram com aquele grande desfile. «Paz sim, guerra não», «Paz no Médio Oriente, Palestina Independente», «Cuba resiste, Cuba vencerá», «Sara livre e independente», «A luta vai continuar para o salário aumentar» ou «Queremos paz, pão e o direito à habitação» foram palavras de ordem gritadas em uníssono pelos manifestantes que seguravam tarjas onde se lia, por exemplo, «O capitalismo destrói a tua vida, é hora de transformar o mundo», «Milhões para a guerra, tostões para o trabalhador», «Luta! Diz não à guerra, contra o aumento dos preços» e «Aumentar salários e pensões, travar o aumento dos preços, contra a exploração e a especulação».

 

Luta desenvolve-se por todo o mundo

No comício intervieram ainda quatro convidados internacionais, oriundos da Palestina, do Sara Ocidental, de Cuba e da Irlanda, que partilharam exemplos de resistência e de luta dos seus povos.

«Diante esta realidade, nós, as forças progressistas temos uma grande responsabilidade: actuar e intervir com coerência, defender os nossos princípios e transformar a solidariedade em compromissos políticos concretos. O colonialismo não pertence apenas aos livros de história. Continua a ser uma triste e dramática realidade, em África – no meu continente –, na América Latina e nas Caraíbas. O povo sarauí é exemplo disso. 50 anos volvidos da proclamação do nosso Estado, continuamos a defender o nosso direito inalienável à auto-determinação e à independência.»
Omar Mih, representante da Frente Polisário em Portugal

«Eles [“belicistas” e “lacaios do complexo industrial militar”] não se importam nem um pouco com o povo da Ucrânia, tal como não se importam com o povo de Gaza. (…) Querem que pensemos na nossa segurança retirando-a a outros. Querem que lutemos contra os russos, contra os muçulmanos. Querem que a classe média lute contra os pobres e que os pobres lutem contra a classe média. Querem isto porque sabem que, assim que deixarmos de lutar uns com os outros, nos voltaremos contra eles. E por mais poderosos que sejam, sabem que, se o fizermos, vamos vencer. Não temos escolha. O futuro da humanidade depende disso.»
Clare Daly, antiga deputada do Parlamento irlandês e do Parlamento Europeu

«É uma honra estar hoje entre pessoas conscientes da sua responsabilidade de defender os direitos e a dignidade humana, que são contra a injustiça, o colonialismo, a ocupação e a opressão em todo o mundo. (…) Enquanto aqui estamos, o nosso povo está a ser sujeito às mais horríveis formas de violência, sob um sistema apartheid colonialista e de colonos e um regime genocida que visa o seu extermínio. [Este regime] É sustentado pelo poder, pela força militar e pelo imperialismo, com total apoio da administração dos EUA, que é cúmplice dos crimes cometidos não só na Palestina, mas também em países de todo o mundo, como no Iraque, Irão, Líbano, Cuba, Afeganistão, na Venezuela e noutros.»
Shawan Jebreen, Director-Geral da Al-Haq, organização palestiniana de defesa de direitos humanos

«O governo dos EUA fala diariamente de guerra e eleva a sua retórica de ameaça a Cuba, o que constitui um acto de extrema crueldade e irresponsabilidade que pretende quebrar a vontade e a resistência do nosso povo. Algo que não conseguiram alcançar. (…) O nosso Primeiro Secretário, Miguel Díaz-Canel, afirmou que Cuba resiste heróica e criativamente, mas sofre há demasiado tempo um castigo bárbaro e insuportável. Esta realidade impõe mudanças urgentes e necessárias e, quando a vida do povo se torna assim tão dura, a primeira tarefa do PCC e do governo revolucionário não é explicar melhor os motivos da crise que enfrentam, mas sim perceber o que é preciso fazer para a resolver. (…) O nosso povo deseja a paz, mas está disposto a defender a sua soberania e integridade territorial até às últimas consequências».
José Ramón Saborido Loidi, Embaixador da República de Cuba em Portugal