- Nº 2761 (2026/10/29)
DeliberadaMente

Muito fascínio e pouca discussão

PCP

O País enfrenta vários e graves problemas, entre os quais o acesso a casa para viver. São problemas com responsabilidades e responsáveis políticos, que têm sido enfrentados com a persistente luta da juventude, dos trabalhadores, das populações. Foi assim na vitória dos trabalhadores com a derrota do pacote laboral, tem sido assim nos protestos de trabalhadores do sector da hotelaria, dos transportes, da Administração Pública, dos professores, das forças de segurança, dos investigadores e bolseiros, das populações contra o aumento dos preços, em defesa do SNS, dos reformados, dos agricultores, dos estudantes, pela paz e a solidariedade.

São lutas que convergiram no dia 17 na manifestação nacional da CGTP-IN, em que a habitação assumiu também um papel destacado. Ao longo de meses, os noticiários foram dominados não por essas lutas nem pelos problemas na sua origem, mas por exercícios especulativos, muitas vezes em torno do esotérico, em torno de arranjos parlamentares, declarações políticas de grande teatralidade e pouco ou nada de substância, uma autêntica operação político-mediática que visa desviar atenções e abrir espaço à manutenção da política anti-social, antipatriótica e antidemocrática em curso.

É útil ter este quadro quando se olha para as opções editoriais no tratamento dos recentes protestos, cá dentro e lá fora. Os órgãos de comunicação social não são actores neutros – nem é o jornalista na abordagem ou nas perguntas que faz, e menos é o decisor que escolhe o conteúdo, a imagem ou o título de cada peça publicada –, e essas opções revelam ao lado de quem se colocam. É assim quando se escolhe imagens de confrontos envolvendo a polícia em Paris ao mesmo tempo que se esconde o mar de gente que enchia as ruas da cidade; quando essas imagens se sobrepõem à enorme manifestação da CGTP-IN, como fizeram todos os canais de televisão no dia 17; ou quando, como sucedeu no passado sábado, a CMTV faz acompanhar as imagens de manifestações em Lisboa e no Porto com insinuações de “infiltrações” nas mesmas (sem dispor de qualquer elemento que o indicasse) e a imagem de um agente do corpo de intervenção da PSP totalmente equipado no canto do ecrã.

Um cínico poderia atribuir estas opções ao fascínio que caracteriza o sensacionalismo reinante que contamina toda a comunicação social dominante. Mas isso é como dizer que o problema da habitação resulta de haver quem não consegue pagar a renda. É verdade, mas não explica as razões: para quê e a quem serve afogar a discussão em torno dos problemas que o País atravessa, como a habitação, na avalanche de imagens a que temos assistido? Certamente aos mesmos a quem interessa falar de tudo, do custo da limpeza da estátua do Rossio à imposição de limites ao direito à manifestação, ao mesmo tempo que aprovam leis à medida dos grandes proprietários do imobiliário.

Todos eles, sempre, com uma entrevista à sua espera num qualquer canal de televisão.