Outubro no nosso tempo

Luís Carapinha

A chama de Outubro não se extinguiu

Boris Kustodiev

Comemoram-se os 109 anos da Grande Revolução de Outubro. Acontecimento luminoso na história, a conquista do poder pelo partido bolchevique e a instauração do poder soviético na antiga Rússia dos czares marcou um ponto de ruptura e inaugurou uma nova época da Humanidade – em que nos encontramos – de transição do capitalismo para o socialismo.

A tomada do Palácio de Inverno, em Petrogrado, a deposição do Governo Provisório de Kerensky – que sucedera à abdicação de Nicolau II e fim da monarquia, uns meses antes, na Revolução de Fevereiro –, e a formação do novo governo dirigido pelos bolcheviques e liderado por Lénine, foi o ponto culminante da revolução social russa que, durante a primeira revolução russa de 1905-1907 tinha tido o seu “ensaio geral”. Porém, o significado de Outubro transcende os limites do antigo império, abraçando uma dimensão universal. Depois da Comuna de Paris (1871), afogada em sangue pela reacção, o triunfo da revolução proletária russa converte-se no “assalto aos céus” em que, pela primeira vez, as classes oprimidas tomam o poder na sua plenitude e lançam-se na tarefa pioneira de construir uma sociedade superior ao capitalismo, o socialismo. Convocando à participação e criatividade de milhões de “excluídos”, Outubro demonstrou que os trabalhadores e os povos são o verdadeiro sujeito, o demiurgo, da história...

No início do século XX, no pano de fundo dos efeitos da crise capitalista que desembocam na Primeira Guerra Mundial, o amadurecimento da situação revolucionária na Rússia é inseparável da sua condição periférica, de “elo mais fraco” do sistema capitalista. O capital estrangeiro exercia uma influência dominante na banca e sistema financeiro russos e, também, nos principais sectores da indústria, em rápido desenvolvimento. Com uma população maioritariamente camponesa e analfabeta, a Rússia exaurida pela participação na I Guerra era simultaneamente o centro de um império em revolta e desagregação. O triunfo de Outubro, sendo inseparável da primeira guerra imperialista mundial e da crise capitalista subjacente, desponta das entranhas da arrastada crise terminal da Rússia czarista, patriarcal e semi-feudal, para realizar a mais profunda transformação social na história milenar da Rússia – e dos povos emancipados da tutela imperial na antiga “prisão dos povos”, na expressão de Lénine.

A Revolução adoptou a forma original do poder dos Sovietes como estrutura de governação – conduzindo no final de 1922 à fundação da URSS, sobre os escombros do velho império. Desde o início, o novo poder enfrentou as questões cadentes da Paz, Terra e dos direitos de autodeterminação nacional. A reacção das potências imperialistas foi visceral. Os dois lados opostos da contenda na I Guerra Mundial uniram-se no apoio à guarda branca contra-revolucionária que alimentou quatro anos de guerra civil russa, e na intervenção militar directa que reuniu tropas de 14 países, incluindo a Alemanha, França, Grã-Bretanha, EUA e Japão.

Em cerca de 70 anos de história, a URSS desempenhou um papel central nas grandes conquistas e avanços libertadores da Humanidade, do processo de construção socialista, à industrialização, introdução dos planos quinquenais e levantamento dos povos oprimidos; da derrota do nazi-fascismo na guerra mais mortífera, às lutas de libertação nacional, o fim dos impérios coloniais e triunfo das novas revoluções socialistas no mundo. A perspectiva inicial da direcção bolchevique de triunfo revolucionário na Europa não se concretizara. O eixo revolucionário moveu-se para a Ásia, como previsto por Lénine. Foi sob a salva dos canhões do Aurora de 7 de Novembro que o movimento revolucionário despertou na China e se fortaleceu, conduzindo ao triunfo do PCC e da revolução chinesa.

A construção da sociedade socialista revelou-se mais complexa e acidentada do que o previsto. A chama de Outubro não se extinguiu, contudo. Renova-se na resistência e lutas dos explorados e dos povos. Está presente nos processos que persistem hoje no objectivo do socialismo, na sinuosa ascensão do “Sul Global”, na profunda mudança e rearrumação de forças mundial, tendo como principal referente a emergência da China e o horizonte desafiante de “modernização socialista”. Outubro e o socialismo estão inscritos no nosso tempo, da era digital e da IA, num mundo confrontado com a espiral da crise do capitalismo e as ameaças desveladas pelo declínio dos EUA e demais potências imperialistas – a exploração, a guerra, o neo-fascismo, a barbárie.



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