«Todos estes aumentos têm razões que a política de direita sabe de cor e salteado»
2003: A LUTA VAI CONTINUAR

O primeiro dia do novo ano foi portador da primeira vaga de más notícias: aumentos da electricidade, das rendas de casa, dos seguros, das portagens. Para já. A segunda vaga chegará dentro de momentos.

Como manda a tradição, todos estes aumentos se situam acima, muito acima da taxa de inflação apresentada pelo Governo e acima, muito acima dos aumentos salariais e das pensões e reformas que os executores da política de direita pretendem impor – pelo que, feitas as contas, acentua-se a baixa dos salários reais e as pensões e reformas são cada vez mais de miséria.

O custo das portagens vai por aí acima: um aumento de 5% na Ponte 25 de Abril; de 5,7% na Vasco da Gama; de 3,3%, em média, nas auto-estradas – e, como se isso não chegasse, entendeu o Governo Barroso/Portas introduzir o pagamento de portagens na CREL: 2,5 euros para quem fizer o percurso completo (Aos protestos veementes de alguns elementos do PS face á introdução destas portagens, reagiram, não menos veementemente, alguns elementos do PSD, acusando-se uns aos outros de responsáveis pela situação criada; e a verdade é que uns e outros estão cheios de razão, quer neste caso quer em todas as mútuas acusações que se fazem sobre os males do País, dado que, como toda a gente sabe mas nem toda a gente se lembra, são eles – PS e PSD, amiúde com o CDS – quem está no Governo há mais de 25 anos...).

Quanto ao seguro automóvel, os aumentos andam na casa dos 10 a 12%, enquanto os das rendas de casa se situam nos 3,6% e as tarifas de electricidade pulam 2,8%. (Nesta matéria, Portugal ocupa o primeiro lugar na União Europeia: as nossas tarifas de electricidade são as mais elevadas – 97% acima do preço praticado na Grécia, por exemplo; ou, outro exemplo, cerca de 40% acima do preço praticado em Espanha). Todos estes aumentos têm razões que a razão e a justiça social desconhecem mas que a política de direita sabe de cor e salteado. E que os seus propagandistas não se cansam de justificar e explicar, procurando baralhar e confundir.

 

Avisam todos esses propagandistas que o ano de 2003 vai ser pior do que o anterior. Sobre as razões e as soluções também estão todos de acordo. Mais coisa menos coisa, obviamente. Para todos, sem excepção, esta pioria é uma inevitabilidade e exige sacrifícios a todos nós - isto é, aos trabalhadores.

Diz um que, no ano agora começado, haverá «menos poder de compra, menos consumidores com trabalho» (ou seja: mais desempregados) e que «os problemas não se ficam por aqui», na medida em que «a confiança das famílias portuguesas está ao nível da recessão de 1993 e (...) continuará provavelmente a deteriorar-se. Por tudo isto, «e tendo ainda em conta o elevado nível de endividamento das famílias portuguesas – cerca de 90% do seu rendimento disponível – 2003 surge como um grande convite à poupança ou à redução do endividamento». Poupar (o quê?) e reduzir o endividamento (como?), eis, então, a solução.

Diz um outro comentador que 2003 «será um ano difícil: pelas complexidades, incertezas e tensões internacionais; pela crise económica e social nacional». No que diz respeito ao nosso País, explica o comentador que «o indicador avançado compósito e a evolução da sua média alisada mostram que não só o ano de 2002 acaba em perda como esta tendência deverá prolongar-se, pelo menos, até ao terceiro trimestre de 2003», pelo que, acrescenta, em 2003, «a arte da boa governação e da boa oposição, estará em contribuir para a restauração da confiança da sociedade portuguesa em si própria». Ou seja, explica: a boa governação e a boa oposição têm como tarefa «estimular a retoma da auto-estima colectiva e a recessão da autoflagelação permanente», objectivo que passa pela «diminuição da tensão político-ideológica» verificada no ano de 2002 e que será complementado pelo blá, blá, blá compósito e pelo seu teor alisado...

 

Um terceiro analista grita: «Tomem por certo a má nova: o ano vai ser pior do que 2002». E, depois de estender um vasto rol de piorias inevitáveis, sossega-nos, garantindo que «não é o fim do mundo, nem o pior que já passámos». Após o que saca de dentro do centenário baú a centenária mezinha e lê: «Só há uma forma de passar o ano que vai chegar: com o pragmatismo de quem aceita o inevitável».

Eis-nos, então, colocados perante uma realidade generalizadamente reconhecida: o ano de 2003 vai ser pior do que o que passou - acrescente-se, no entanto: pior para quem trabalha e vive do seu trabalho; pior para quem trabalhou e vive, agora, das pensões e reformas; pior para quem quer trabalhar e não vê à sua frente senão espessos e altos muros.

Eis-nos, igualmente, perante uma conclusão comum a todos os comentadores e analistas: as crescentes dificuldades da esmagadora maioria dos portugueses, as quebras dos seus salários reais, os aumentos brutais do custo de bens essenciais, as tentativas de liquidar direitos dos trabalhadores dificultando cada vez mais as suas condições de luta, tudo isso é resolúvel através da poupança, da boa governação e da boa oposição – acrescente-se, também aqui: só uma política de esquerda resolverá os problemas criados pela política de direita.

Eis-nos, enfim, perante a comum preocupação de difundir e vender como coisa inevitável e pragmática, a aceitação passiva e submissa por parte dos explorados de tudo o que serve os interesses dos exploradores – e acrescente-se e garanta-se: preocupação infrutífera, já que, como a realidade mostrará, no ano de 2003 a luta vai continuar. Mais ampla. Mais intensa. Mais forte.



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