Uma semana depois
O inferno iraquiano

O ataque ao Iraque deixou de ser um passeio no Golfo e transformou-se num inferno. Os invasores matam mas também morrem, e a contra-informação ganha terreno.

O discurso dos EUA mudou ao quarto dia. Afinal a «libertação» dos iraquianos não vai ser tão fácil e fulgurante quanto se previa, o controlo das cidades é deixado para mais tarde, os acidentes sucedem-se, o fogo «amigo» mata de forma tão definitiva como o inimigo, os danos «colaterais» aumentam e a «precisão cirúrgica» dos ataques não poupa alvos civis.

 

No início da semana, após o Iraque ter apresentado os primeiros prisioneiros norte-americanos, o Pentágono reconhecia a morte de seis soldados, 14 feridos e 12 dados como «desaparecidos». Desde então, outros números se seguiram, sem confirmação.

 

A exibição das imagens dos presos, bem como dos soldados mortos, difundidas domingo pela estação Al-Jazira, do Qatar, foram de imediato condenadas por Washington e pela Cruz Vermelha Internacional, que a consideraram uma «violação da Convenção de Genebra».

 

O caso motivou uma intervenção de Bush, que disse esperar que os soldados sejam tratados «como prisioneiros de guerra» e «humanamente, tal como nós trataremos os prisioneiros iraquianos». O presidente dos EUA ameaçou ainda que «aqueles que maltratarem os prisioneiros americanos serão considerados criminosos de guerra».

 

Dois dias antes, a CNN havia divulgado, com o consentimento dos EUA, imagens de militares iraquianos presos pelas forças norte-americanas depois de combates em Bassorá. As imagens mostravam homens de joelhos, mãos atadas atrás das costas e outros a receberem assistência sob a mira das armas. O Financial Times de sábado mostrava um desses prisioneiros a receber água de um militar enquanto outro lhe encostava o cano da arma à cabeça. Dessa vez não houve protestos nem se ouviu falar da Convenção de Genebra.


 

Apenas o início


 

Mais chocante do que a imagem dos vivos é a imagem dos mortos, sejam eles atacantes ou atacados. Muito naturalmente, as autoridades dos EUA não gostaram de ver os corpos mutilados dos seus homens expostos aos olhos do mundo e do povo americano, mas é difícil acreditar que quem escolheu o caminho da agressão mais desumana reaja por razões humanitárias. O que o Pentágono e a Casa Branca não querem é que o povo norte-americano saiba o preço de sangue forçado a pagar pelas suas aventuras de guerra, nem que o mundo veja as terríveis imagens dos mortos e feridos iraquianos - homens, mulheres e crianças -, igualmente difundidas pela Al-Jazira, e que mostram com toda a crueza a bestialidade da «libertação» do Iraque. O total de vítimas, sempre difícil de contabilizar, ascende já a largas dezenas de mortos e a um número indeterminado de feridos.

 

Mais terrível ainda do que as imagens mostradas até agora é o facto de os EUA reconhecerem que «isto é apenas o início». Uma afirmação que vale para os dois lados.

 

Após lançarem a operação «choque e pavor», que na noite de sexta-feira para sábado despejou sobre Bagdad milhares de bombas, americanos e britânicos puseram em acção os portentosos B52, verdadeiros contentores de bombas que desde o início da semana lançam a destruição e a morte.

No regresso do seu fim-de-semana em Camp David, Bush voltou a repetir que o objectivo dos ataques é «desembaraçar o povo iraquiano de um ditador brutal» e garantiu que tudo será feito «para proteger vidas inocentes».


A Convenção de Genebra


A Convenção de Genebra respeitante ao tratamento de prisioneiros de guerra foi adoptada em 12 de Agosto de 1949, durante uma conferência naquela cidade suíça dedicada à protecção das vítimas de conflitos armados, e entrou em vigor a 21 de Outubro de 1950.

De acordo com o artigo 13 da Convenção, os prisioneiros de guerra têm de ser tratados permanentemente tratados de forma humanitária. «Qualquer acto ilegal ou omissão da parte que efectuou a captura que cause a morte ou ameace seriamente a saúde de um prisioneiro de guerra sob a sua custódia é proibido, e será considerado uma séria violação da Convenção», refere o artigo. O mesmo ponto sublinha ainda que «nenhum prisioneiro de guerra pode ser submetido a mutilação ou experiências médicas ou científicas de nenhum tipo que não sejam justificadas pelo tratamento médico», e exige que os prisioneiros sejam protegidos todo o tempo «contra actos de violência ou intimidação e contra insultos ou curiosidade pública».

O artigo 14, por seu turno, estipula que os prisioneiros de guerra «têm direito, em todas as circunstâncias, ao respeito à sua pessoa e à sua honra», devendo «ter preservada a plena capacidade civil de que gozavam na época da sua captura», pelo que não lhes deve ser coarctado o exercício dos direitos, excepto «até onde o cativeiro o exigir».

O artigo 23 estabelece, por outro lado, que nenhum prisioneiro de guerra poderá, em nenhum momento, ser enviado ou mantido em área de combate em que esteja ameaçado, e que os campos em que estejam agrupados têm de ter a indicação de prisioneiros de guerra claramente visíveis para evitar que sejam alvo de ataques aéreos.

A Convenção diz ainda expressamente que os prisioneiros de guerra não devem ser filmados ou fotografados.



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