• Miguel Urbano Rodrigues

A expulsão de 14 diplomatas cubanos visa criar tensões
Bush prepara novas sanções
Os EUA provocam Cuba
Cuba sente-se ameaçada. O povo da ilha tem consciência de que talvez nunca desde a crise dos mísseis em 1962 enfrentou ameaça comparável à actual.
Nas últimas semanas sucederam-se em cadeia as iniciativas agressivas dos EUA. Para dissipar dúvidas quanto às intenções da Casa Branca, o governador da Florida, irmão do presidente, e funcionários de alto nível do departamento de Estado não hesitaram em afirmar que Cuba pode ter o destino do Iraque...
Inconfidências do presidente, tornadas públicas pela comunicação social, confirmam que a administração Bush adoptou uma estratégia que faz da política migratória uma arma perigosa.
Atitudes, campanhas, medidas e decisões sem relação aparente integram-se num ambicioso plano cujo objectivo último seria a destruição da Revolução cubana.
Bush informou que estuda no momento sanções não previstas na Lei Helms Burton. Não especificou quais, mas esclareceu que não renovará as medidas transitórias da administração Clinton que facilitavam visitas à Ilha no âmbito de um programa de intercâmbio cultural. Segundo a imprensa, a Casa Branca pretende também revogar a legislação que permite a cubano-americanos enviar, até um determinado limite, dólares aos seus familiares.
O montante desses remessas não é conhecido, mas admite-se que, através de diferentes canais, os imigrantes dos EUA transferem para Cuba anualmente um total que oscila entre 800 e mil milhões de dólares, superior ao rendimento líquido conjunto do turismo e das exportações do níquel.
A recente expulsão de 14 diplomatas cubanos, colocados no Escritório de Interesses de Washington e na Embaixada junto das Nações Unidas, insere-se no plano que visa a criar tensões que, segundo altos funcionários do governo, poderiam eventualmente justificar «medidas extremas» dos EUA.
Segundo o Departamento de Estado, esses diplomatas estariam a desenvolver «actividades inapropriadas e inaceitáveis». Aparentemente de espionagem. Mas a acusação que essa linguagem encobre é outra: os diplomatas expulsos limitavam-se a prestar assistência - acompanhando-os nas visitas - aos familiares de cinco patriotas cubanos que cumprem penas pesadas em presídios dos EUA após julgamentos de pura farsa.

Estímulo à emigração ilegal

Washington provoca. Bush e Colin Powell desejariam que a indignação suscitada pela medida levasse Cuba a uma política de retaliação, susceptível de conduzir a um desfecho explosivo: o encerramento do Escritório de Interesses dos EUA em Havana.
Motivos para isso não faltam. O governo cubano tem repetidamente responsabilizado os EUA pelo não cumprimento do Acordo Migratório assinado após a crise dos «balseros». Mas não há indícios de que responda às provocações de Washington procedendo como o seu poderoso interlocutor desejaria.
Os EUA não somente concedem o direito de residência a qualquer cubano que pise ilegalmente território norte-americano - no âmbito da lei de ajuste, um aborto jurídico - como desrespeitam o compromisso assumido de receber anualmente um mínimo de 20 000 imigrantes, nos termos do Acordo firmado. De ano para ano, o número de vistos de entrada tem diminuído. No primeiro trimestre de 2003, o total de vistos concedido foi apenas de 505, um décimo da média prevista.
Essa redução abrupta e não justificada de vistos coincidiu com a campanha de estímulo à emigração ilegal concebida e pessoalmente comandada por James Cason, chefe do Escritório de Interesses dos EUA.

Uma conclusão transparente

James Cason, que tem o estatuto de embaixador, não se limitou a percorrer a Ilha, em visitas de propaganda anti-cubana, reunindo-se com indivíduos com antecedentes penais, distribuindo generosamente milhares de dólares e prendas caras. Ultrapassou todos os limites ao promover a formação de grupos contra-revolucionários mascarados de partidos políticos.
No dia 16, seis grupelhos totalmente desconhecidos enviaram aos correspondentes estrangeiros em Havana um documento que haviam dirigido ao governo cubano, no qual exigem a «imediata libertação» dos 75 cidadãos condenados recentemente (em julgamentos públicos, assinale-se) e «um diálogo sério sobre direitos humanos».
Logo as agências noticiosas difundiram esse papel pelo vasto mundo, informando que os signatários se apresentam como representantes de uma frente auto intitulada «Arco Progressista».
Resido em Cuba, mas nunca ouvira sequer falar desse «Arco», nem da existência dos grupos que nele se situariam, entre os quais um diz chamar-se «Partido do Povo» e outro «Coordenadora Social Democrata».

Conivência

Entretanto, prosseguem as saídas ilegais. No início do mês, a Guarda Costeira dos EUA interceptou uma balsa que se aproximava da Florida. Deveria, para cumprir o acordo, ter devolvido imediatamente os tripulantes a Cuba. Mas isso não aconteceu. Permitiu que três deles se lançassem à água. Não os capturou. Ofereceu-lhes bóias e acompanhou-os durante três quilómetros até que, nadando, chegaram, a uma praia e invocaram a Lei de Ajuste...
No dia 15, outra balsa, com seis passageiros, foi interceptada. Seguiu-se nova farsa.
Em Washington, Cuba é acusada de passividade perante o problema migratório. O cinismo do discurso não difere muito do que apresenta a matança iraquiana como uma cruzada libertadora e humanitária.
É compreensível que a comunicação social norte-americana derrame elogios sobre os intelectuais de esquerda que criticaram Cuba após os julgamentos de 75 contra-revolucionários e o fuzilamento de três sequestrados.
Uma conclusão transparente: nunca como nestes dias, desde Giron, o povo de Cuba precisou tanto da solidariedade dos seus amigos.


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