Editorial

« A principal preocupação dos EUA em matéria de democracia, é a fachada»

OS ARGUMENTOS DO IMPÉRIO


Voltemos à questão do Iraque. Quanto mais não seja para não deixar sem resposta o espesso manto de manipulação sob o qual está a ser soterrado todo o processo que conduziu à invasão e ocupação daquele país. Relembremos, por exemplo, os argumentos com os quais os invasores pretendiam demonstrar as democraticíssimas preocupações que suportavam a sua decisão de ocupar o país. Desde o início do processo, os EUA garantiram ao mundo que o Iraque possuía armas de destruição maciça e armas biológicas; que albergava perigosos terroristas; e que essas armas terríveis e esses terríveis terroristas punham em perigo a Humanidade. Por tudo isso, concluía o Chefe do Império, a invasão e ocupação do Iraque (operação por ele designada por «libertação do Iraque»), colocava-se como uma questão inevitável e inadiável. De tal forma que a decisão de avançar foi tomada mesmo com a oposição da ONU – inclusivamente de países como a França, a Alemanha e a Rússia – mas com o apoio dos mais fiéis lacaios do Império: o sempre disponível Blair, os inevitáveis Berlusconi, Aznar e Barroso. Todos estes servos repetiam, no mesmo tom e com a mesma convicção do Chefe, o discurso das armas de destruição maciça. Um discurso que, contudo, salvo nos indefectíveis do Império, não colava, não era credível e, por isso, fragilizava a fachada democrática com que os EUA, de acordo com os seus hábitos, queriam vestir a operação. Ora, como é sabido, a principal preocupação dos EUA em matéria de democracia, é a fachada: se qualquer posição do Império não parece ser o que não é - ou seja, democrática – o Império treme. Daí o gigantesco esforço no sentido de levar o mundo a acreditar que os argumentos invocados para justificar a guerra eram verdadeiros, que o Iraque possuía as tais terríveis armas e estava disposto a utilizá-las contra a Humanidade.

A dado momento, Colin Powell foi à ONU mostrar provas da existência das temíveis armas – provas que, em parte lhe haviam sido fornecidas pelo prestimoso Blair, e que fizeram pular de entusiasmo os aznares, barrosos & Cia. As ditas provas, classificadas pela comunicação social dominante como «irrefutáveis», «incontestáveis», «esclarecedoras» e «concludentes», cedo vieram a revelar-se fraudulentas: Powell levou à ONU pedaços de um artigo publicado num qualquer jornal e de uma tese de doutoramento apresentada por um jovem, uma década antes, em Cambridge. Apesar disso, Blair, Aznar, Barroso e etc. continuavam a repetir fielmente os argumentos de Bush. Entretanto, as pretensas armas de destruição maciça recusavam-se a aparecer. Enquanto as bombas lançadas pelos EUA e pela Grã-Bretanha e festejadas pelos aznares e barrosos –essas, sim, de destruição maciça - continuavam a cair sobre o Iraque, a destruir o país, a espalhar o sofrimento e a dor, a ceifar milhares de vidas.
Concretizada a ocupação do Iraque, houve quem pensasse que as provas iriam finalmente ser exibidas. Mas não: um alto representante do Governo dos EUA veio a público informar que as temidas armas teriam sido transportadas para a Síria... E, posteriormente, o secretário de Estado Rumsfeld tornou pública a seguinte espantosa declaração: «É bem possível que os iraquianos tenham destruído as armas de destruição maciça antes da guerra começar».
Quer isto dizer que terminada a guerra (ou, melhor dizendo, ocupado o país), os argumentos utilizados para justificar a invasão, a destruição e a morte de milhares de pessoas, continuavam a aguardar confirmação. Não obstante, Blair, Aznar, Barroso... continuavam a garantir a existência de armas de destruição maciça no Iraque e a justificar, assim, o apoio dos seus governos à guerra.

Eis que, entretanto, tudo se esclarece: Paul Wolfowitz, secretário adjunto da Defesa dos EUA, acaba de revelar que, afinal, os tais argumentos eram falsos e foram utilizados somente por «razões burocráticas». Ou seja, explica ele: considerando o Governo dos EUA que a existência de armas de destruição maciça no Iraque era «o único argumento capaz de pôr toda a gente de acordo, em relação à necessidade da guerra, resolveu mentir a toda a gente. Acresce que, revelada e confessada a falsidade dos argumentos, o Conselho de Segurança da ONU resolveu aceitá-los como verdadeiros... e, por unanimidade, portanto com os votos da França, da Rússia, da Alemanha (e da China, anote-se), aprovou uma Resolução (1483 – que há-de ficar como um número da vergonha para todos os seus subscritores) que, ao fim e ao cabo, aceita a invasão e ocupação do Iraque, assume a co-responsabilização na agressão, avaliza os crimes cometidos pelos invasores e ocupantes e aceita o gauleiter nomeado pelo Império como Chefe do Iraque. Isto, depois de os EUA, enquanto actuais donos do Iraque, terem prometido que a dívida iraquiana à França, à Rússia, etc. (que andará na ordem dos 400 mil milhões de euros) será integralmente paga – promessa que é para cumprir já que a Resolução é muito clara em matéria de petróleo: «até à criação no Iraque de um governo internacionalmente reconhecido», a venda do petróleo do país é da responsabilidade dos ocupantes.
Milhares de cidadãos inocentes foram mortos e um país foi destruído, massacrado e colonizado na base de argumentos cuja falsidade é, agora, reconhecida pelos autores do crime. Esses falsos argumentos foram utilizados pelo Governo Português para justificar a sua conivência com os criminosos. E agora? Em que ficamos?


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