«Tendiam a ver e interpretar provas de uma forma particular»
Invasão do Iraque
As mentiras de Bush...
Responsáveis dos serviços secretos dos EUA acusam a administração Bush de deturpar as informações recebidas para justificar o ataque ao Iraque.

A edição de segunda-feira da revista Time afirma que o Departamento de Estado norte-americano «acreditou» que existiam armas de destruição maciça no Iraque dando como certo «o pior cenário» admitido como hipótese pelos serviços secretos com base nas suas informações, ignorando erros e ambiguidades.
Segundo o artigo, baseado em declarações de diversos especialistas e funcionários do Pentágono e da CIA, «havia sempre uma predisposição da administração para assumir o pior sobre Saddam Hussein», como afirmou um oficial militar recentemente reformado.
Para uma determinada informação - como uma fotografia de satélite ou uma escuta telefónica -, os serviços secretos apresentavam três leituras possíveis, mas a administração optava sempre pela mais grave, dando-a como verdadeira.
«Tendiam a ver e interpretar provas de uma forma particular para apoiar uma convicção muito profunda», afirma o oficial, cujo nome a revista não divulga, que abandonou o cargo após ter chegado à conclusão de que os EUA iriam atacar o Iraque com base em informações falsas.
Um outro oficial não identificado vai mais longe e afirma que o secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, «distorceu profundamente» os dados, «quase de forma patológica». A título de exemplo é citado o caso da descoberta de alguns tubos de alumínio no Iraque, apresentados como sendo para a produção de urânio para armas nucleares, apesar de especialistas do Departamento de Energia, entre outros, terem discordado dessa possibilidade.
A descoberta dos referidos tubos foi apresentada no Conselho de Segurança da ONU pelo secretário de estado norte-americano, Colin Powell, como uma «prova» de que o Iraque possuía armas de destruição maciça.
Outro caso referido é o dos documentos que «provavam» que o Iraque tinha tentado comprar urânio ao Niger, os quais se veio a verificar serem falsos. Washington fez tábua rasa desta realidade e afirmou que a informação provinha de mais de uma fonte e de mais de um país, mas sem dar pormenores.

Senadores querem inquérito

Entretanto, segundo a Lusa, vários senadores norte-americanos declararam, no domingo, ser favoráveis à abertura de um inquérito sobre a credibilidade das informações dos serviços secretos quanto às armas de destruição maciça no Iraque.
Em declarações à cadeia de televisão ABC, o senador republicano John McCain admitiu que o Congresso poderá instalar «uma comissão bipartida encarregada de elaborar um relatório sobre as actividades dos serviços de informações» sobre o Iraque. Falando à mesma estação, o senador democrata Christopher Dodd reconheceu que «foi levantado um número suficiente de questões» relativas à credibilidade das informações norte-americanas sobre o Iraque e sobre uma possível manipulação política para justificar «um exame completo» da situação.
Ainda no domingo, o presidente da Comissão das Forças Armadas do Senado, o senador republicano conservador John Warner, embora manifestando a sua confiança na integridade da administração Bush e, em especial, no director da CIA, George Tenet afirmou à CNN que vai analisar a questão.
O mais curioso é que George Tenet começou já a «sacudir a água do capote» quanto a eventuais responsabilidades. Defendendo a actuação dos seus agentes, Tenet afirmou há dias que «uma coisa é recolher e analisar» a informação e outra, muito diferente, é a forma como essa informação é utilizada pelas autoridades.
Das alegadas armas continua a não haver nem rasto.

... e de Blair

Na Grã-Bretanha, o mais fiel aliado dos EUA, o primeiro-ministro Tony Blair está igualmente a ser acusado de ter mentido para legitimar a sua aliança com Bush na invasão do Iraque.
Clare Short, a secretária do Desenvolvimento Internacional que renunciou ao cargo em protesto contra a política britânica, diz que Blair enganou a opinião pública sobre o perigo de um ataque iraquiano com armas químicas ou biológicas. «A pergunta é: havia armas? Havia o perigo iminente de poderem ser usadas?», questionou Short, lembrando de seguida que os serviços secretos britânicos não disseram ser esse o caso.
«Numa questão tão importante como esta, em que muitas pessoas perderam a vida, é preciso saber se fomos enganados e se havia outra forma de actuar que custasse todas aquelas vidas. É uma questão histórica tão importante que temos que saber a verdade», afirmou Short.
Também o ex-secretário dos Negócios Estrangeiros, Robin Cook, que se demitiu nas vésperas da invasão do Iraque, exigiu uma investigação independente às declarações do primeiro-ministro de que o governo iraquiano tinha «planos militares activos» para usar tais armas. Lembrando que as forças britânicas estiveram no Iraque por mais de 45 dias sem encontrar uma única arma química, Cook considera ser «óbvio que aquele comunicado estava errado». «Começa a parecer que o governo cometeu um erro monumental», disse Cook, defendendo a necessidade de uma investigação sobre a intervenção das tropas britânicas «com base num erro».
O governo australiano começa igualmente a ter dúvidas sobre esta questão. Segundo a Lusa, o ministro da Defesa, Robert Hill, admite agora que possa ter havido «imperfeições» nos relatórios sobre a existência de armas de destruição maciça no Iraque.
Numa entrevista publicada segunda-feira pelo jornal Sydney Morning Herald, o ministro recorda que a Austrália se juntou à coligação anglo-norte-americana contra o Iraque por acreditar que o regime de Saddam Hussein escondia armas proibidas.
O ministro continua à espera do aparecimento de provas, embora reconheça que a Austrália, com base na sua própria recolha de informações, não tem nada que ateste a existência dessas armas.
Tony Blair, por seu lado, garante que as armas vão aparecer. Sem inspectores da ONU no terreno, o difícil será apresentá-las de forma credível.


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