Editorial

«Nessa matéria, o Primeiro Ministro não tem ‘o direito de exigir’ nada a ninguém»

DIREITOS E DEVERES

A decisão do Governo Barroso/Portas, há dias concretizada, de enviar um contingente da GNR para o Iraque, constitui mais um passo em frente no irresponsável envolvimento de Portugal numa guerra de ocupação cujos objectivos maiores são, por um lado, a apropriação, por parte dos Estados Unidos da América, das imensas riquezas petrolíferas do Iraque; por outro lado, a sua consolidação como líder incontestável da nova ordem imperialista de cariz totalitário.
Sob o argumento falso de «combate ao terrorismo», o país que é, hoje, o maior centro de irradiação de terrorismo do mundo, tem vindo a levar por diante uma autêntica cruzada de destruição, de terror, de morte.
No Afeganistão, provocando a morte de milhares de pessoas inocentes e destruindo algum do mais valioso património histórico da Humanidade, as hordas do Império despejaram sobre o povo e o país afegãos milhares de toneladas de bombas criminosas. O objectivo, dizia Bush (que, recorde-se, é Presidente dos EUA graças a uma monumental fraude eleitoral sobre a qual não param de nos chegar novas revelações) era o de capturar Osama ben Laden - o terrorista formado na escola superior de terrorismo dos EUA; o terrorista utilizado pelo Império para liquidar sanguinariamente a tentativa de construir um Afeganistão liberto da opressão, da miséria, do obscurantismo, do analfabetismo; o terrorista visita de casa da família Bush e seu sócio em importantes negócios petrolíferos...
No Iraque, também em conflito com um antigo amigo do peito (Saddam Hussein), os Estados Unidos da América, à revelia da ONU mas apoiados pela habitual meia dúzia de criados para todo o serviço (Blair, Aznar, Berlusconi, Barroso), invadiram e ocuparam o país, invocando mais uma vez o objectivo do combate ao terrorismo, agravado neste caso, segundo diziam (mentindo), pelo facto de o Iraque possuir armas de destruição maciça e biológicas, coisas consideradas criminosíssimas - e, por isso, só permitidas aos EUA...

Furando as previsões dos infalíveis estrategos do Pentágono, o Iraque tem vindo a revelar-se um osso duro de roer. Em vez do esperado desfile das forças ocupantes por entre filas de ocupados agradecidos, o que se verifica é uma resistência tenaz, forte e organizada – concretizando, em média, 35 ataques diários – que todos os dias provoca baixas no exército ocupante. Tudo isto tem vindo a espalhar o pânico nas hostes imperiais: o todo-poderoso Império treme e, em pânico, procura uma solução que lhe permita salvar a face... e os interesses em jogo; procura, nomeadamente, convencer outros países a participar no chamado esforço de guerra.
É neste contexto que deve ser vista a decisão do Governo Barroso/Portas de integrar um contingente da GNR nas forças de ocupação do Iraque. Tal decisão, constituindo o prosseguimento da posição de subserviência indecorosa do Governo português aos interesses do imperialismo norte-americano, constitui, ainda, uma atitude que envergonha Portugal e os portugueses, que fere gravemente a soberania nacional e que viola a Constituição da República Portuguesa.
Com efeito, o Governo PSD/CDS-PP, escudando-se na maioria parlamentar de que dispõe e que, antidemocraticamente, confunde com o direito de fazer o que quer, sente-se como peixe na água na tarefa de bem cumprir as ordens imperiais – mesmo que isso implique, como acontece neste caso, pôr em perigo a vida de 128 portugueses.
Acresce que, com um despudor e uma desvergonha sem limites, recorrendo a métodos copiados a papel químico dos do ditador Salazar, o Primeiro Ministro pretende responsabilizar todos os portugueses pelas consequências da irresponsável atitude do seu Governo.

«Tenho o direito de exigir que as discussões acabem e que todos sejam solidários com os nossos homens no Iraque»: são palavras de Durão Barroso, proferidas há dias e logo repetidas e glosadas por todos os seus ecos de serviço que, nos diversos órgãos de comunicação, se têm desunhado para demonstrar o indemonstrável, ou seja, que a decisão do Governo de, sem ouvir ninguém, enviar um contingente da GNR para o Iraque («para uma zona muito pacífica»), deve merecer, agora, face aos perigos muitos e grandes afinal existentes, a co-responsabilização do povo, do País.
Ora, ao contrário do que diz, o Primeiro Ministro, nesta matéria, não tem «o direito de exigir» nada, rigorosamente nada, a ninguém. Muito pelo contrário. Tem, isso sim, deveres muitos a cumprir: o dever de pedir desculpa ao povo português por ter envolvido Portugal numa guerra bárbara e injusta – e que, nos últimos dias, tem vindo a adquirir um carácter de massacre com os «ataques a varrer» levados a cabo pelo exército ocupante ; o dever de pedir desculpa aos portugueses por lhes ter mentido sobre as razões invocadas para a invasão do Iraque; o dever de pedir desculpa á Nação por ter empurrado Portugal para o papel de país ocupante; o dever de pedir desculpa ao País por ter posto em perigo as vidas de 128 membros da GNR; o dever de corrigir os erros cometidos e o desrespeito pela soberania nacional; o dever de tomar medidas urgentes e imediatas para o regresso a Portugal do contingente da GNR – o dever, enfim, de cumprir a Constituição e de ser português. É isso que se lhe exige. Antes que uma eventual tragédia nos reduza à situação de lamentar e chorar perdas de vidas humanas.


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