• Francisco Silva

«Conhecimento prudente»
Volto à questão do «conhecimento prudente» - dizer de Boaventura Sousa Santos (BSS), enquanto parte do título de um volume contendo um considerável conjunto de contribuições de reputados especialistas de diversas áreas . Nesse conjunto de autores inclui-se - como teria de ser - cientistas no sentido mais geral e notório do termo. Um volume do qual BSS é responsável. Com efeito, uma iniciativa louvável.
Eduardo Prado Coelho (EPP) exprime uma opinião semelhante à minha numa das suas públicas crónicas. E mais, estranhando o facto de não ver nenhuma reacção mediática a assinalar a iniciativa de BSS. Em particular - entendi eu do lido no texto de EPP, e quanto me recordo - por parte de tantos que deram tanta ênfase à «guerra» cuja iniciativa foi sobretudo protagonizada por António Manuel Baptista (AMB). Da minha parte - desconhecendo-me EPP, quanto creio e como é natural - não sentirá sinal nenhum nem da presença nem, porventura, da ausência de manifestação, caso esta fosse a presente situação.
Bom, e por enquanto, a minha manifestação confina-se quer à forma da iniciativa de BSS - uma iniciativa louvável, já disse - quer ao título do livro. Mais? Só mais tarde. Só quando me decidir comprar o calhamaço, que isto do investimento em livros mais caros não pode ser assim sem mais nem menos. Aliás, os livros da responsabilidade de BSS são cada vez mais volumosos. Ao contrário, como diz EPP, do «pequeno» livro de AMB - pequeno? os livros medem-se aos palmos? -, um pequeno livro, dizia, que consiste numa crítica ao famoso e também «pequeno» livro de BSS . Crítica que deu algum brado, atenta a dimensão do nosso burgo.
No prefácio a este novo livro, BSS passa depressa do termo «conhecimento» para o de «conhecimento científico», uma expressão - esta - que parece ser mais adequada para o livro em questão. Mas títulos são títulos e esta é também, bem sei, uma questão mediática complexa para os editores, e também para os autores. E talvez por isso, ou talvez mais pela associação do adjectivo prudente a conhecimento, refere EPP que o título é um pouco infeliz. Eu, contudo, não conheço em concreto a razão da sua afirmação.
Ora, tendo eu tomado à letra esta questão do conhecimento dever ser prudente, isto é, tendo-me parecido que um conhecimento prudente deverá ser aquele que não nos faça conhecer as coisas más, coisas que actuadas por nós ou por outros nos leve a cometer actos inconvenientes, que poderão mesmo, no caso da Física Nuclear, levar-nos até à destruição da Terra.
Mas, tendo eu referido a um amigo a minha interpretação para a utilização por BSS desta prudente expressão, bem como a minha discordância para com o significado de evitar conhecimentos perigosos, esse meu amigo, dado às coisas da epistemologia do conhecimento - ou seja, do conhecimento sobre a natureza do conhecimento -, este referiu-me que a utilização do termo «prudente» nada tinha a ver com a perigosidade conteúdo do conhecimento, mas antes com a forma - diga-se assim - do assumir as respectivas proposições e «verdades». Porque, dizia-me ainda o meu amigo, o conhecimento científico, hoje em dia, é de natureza probabilística e, por isso, há que ter muita cautela na sua interpretação; há que ter a consciência dos seus limites.
Claro que não estou de acordo com esta ideia de a regra da prática ter sido o levar ingenuamente à letra - isto é, segundo os padrões mais «simplistas» do senso comum - as proposições decorrentes das leis científicas. Enquanto formando e formado de uma escola de tecnólogos - engenheiros, para ser mais preciso -, lembro-me bem de que, para passarmos da teoria à prática - aos projectos e à sua realização -, devíamos sempre pensar em ordens de grandeza (factores de 10, de multiplicar ou dividir por dez), ou até introduzir coeficientes de «cagaço» (cagaço de caírem pontes, cagaço de que os equipamentos não funcionassem em todas as condições requeridas, cagaço de que os fusíveis não fundissem a tempo ou os disjuntores não disparassem, etc).
Quer dizer, não nos passava pela cabeça utilizar a razão e as leis científicas como se as condições reais fossem as teóricas. Por isso, continuo convencido que tais «pós-modernos» se enganam rotundamente acerca da forma como «nós» encaramos a «racionalidade» e os seus limites. Que os faz, então, crer, no vigorar do que chamam a imprudência dos científicos/tecnólogos?


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