O esclarecimento e a mobilização tem de continuar no próximo semestre
Vasco Cardoso, membro da Direcção da JCP
Estudantes do superior querem novo Governo
A luta dos estudantes do ensino superior recomeça em Março. Para Vasco Cardoso, dirigente da JCP, o balanço do primeiro semestre é muito positivo, tornando-se evidente que os estudantes já não acreditam no executivo de Durão Barroso.
Os estudantes do ensino superior querem um novo Governo, afirma Vasco Cardoso, membro do Secretariado da JCP, em entrevista ao Avante!. «À medida que a luta se vai desenvolvendo, torna-se mais claro que os estudantes consideram que as alterações que se querem no ensino superior passarão por um outro Governo», declara, acrescentando que esse sentimento é patente nas Reuniões Gerais de Alunos (RGAs) e nos momentos de contestação.
Para o dirigente da JCP, a resposta dada pelos estudantes às propostas do Governo no início deste ano lectivo é significativa, destacando, no conjunto das acções de massas, a greve nacional de dia 21 de Outubro e a manifestação nacional de 5 de Novembro. «Ao contrário do que a direita pretende fazer passar, não podemos olhar para estas acções – muitas com um desenvolvimento particular em cada escola – tendo apenas como referência a jornada do dia 25 de Novembro», diz.
«A luta sofre neste período por os estudantes estarem envolvidos em frequências e entregas de trabalhos. Isto não implica o desarmar do movimento estudantil e da necessidade de voltar à carga no segundo semestre com as reivindicações que tinham sido colocadas», sustenta.
Vasco Cardoso refere que o movimento estudantil está sempre refém dos calendários escolares. «Esta luta só pode ter significado e sentido se envolver as massas estudantis. Quando os estudantes estão em frequências e exames, não há condições objectivas para que isso se processe. A experiência diz-nos que o facto de haver estes períodos específicos para a realização de provas não significa que exista uma desmobilização. Até porque, por exemplo, o pagamento das propinas é faseado ao longo do ano e o pagamento de nova prestação ocorre em Março», quando serão retomados os grandes protestos nacionais, como foi decidido no último Encontro Nacional de Direcções Associativas. «Resta desenvolver o trabalho para que estas acções tenham a expressão e o significado político que têm tido até ao momento», sublinha.

Ofensiva

O dirigente da JCP considera que está em curso uma ampla ofensiva ideológica contra os estudantes universitários e politécnicos, com dois objectivos essenciais. O primeiro é a desvalorização dos objectivos e do conteúdo da luta e ridicularizar e caricaturar as condições sociais dos estudantes do ensino superior, tendo sido usado os meios de comunicação dominante. Exemplo disso é dizer que o aluno típico vai para a escola de Mercedes.
O segundo objectivo é descredibilizar a luta de massas. «Isto não é nada de novo. Em 1992 e 1993, quando se deu a primeira luta contra as propinas, a comunicação social entreteve-se com a “geração rasca” e com um grupo de estudantes que teve uma atitude obscena perante o ministro da Educação da altura», recorda.
Hoje, utiliza-se a argumentação dos cadeados que foram colocados nalgumas escolas, «como se a luta dos estudantes estivesse refém daquilo que o poder dominante considera ser os limites dessa luta».
Vasco Cardoso salienta que o esclarecimento, a informação e a mobilização «escola a escola e turma a turma» tem de continuar no próximo semestre. «Este é também um desafio que se coloca à Organização do Ensino Superior da JCP», destaca.

Partidarização das AEs prejudica a luta

«As associações de estudantes (AEs) continuam a ser um instrumento organizado fundamental», defende Vasco Cardoso, não esquecendo contudo que os partidos de direita utilizam as AEs «para combater a luta dentro da própria luta».
«Esta estratégia tem sido assumida. A ofensiva ideológica contra a luta dos estudantes processa-se na comunicação social, no plano legislativo e no seio do movimento estudantil através da partidarização das direcções das AEs», afirma.
Como refere Vasco Cardoso, partidarização implica a tentativa de pôr as AEs ao serviço dos partidos. «Esta tem sido uma evidência», diz. «A partidarização não tem a ver com a participação de membros de partidos. Temos muitos comunistas a participar nas AEs e não consideramos que isso seja a sua partidarização», acrescenta.
Evidências não faltam. No dia 25 de Novembro, a Federação Académica do Porto mudou o local da iniciativa de contestação meia hora antes do seu início. A Associação de Estudantes da Universidade de Évora organizou um autocarro para a manifestação nacional de 5 de Novembro com partida às 8h, apesar da viagem para Lisboa durar 1h30 e de o protesto estar marcado para as 15h.
Existem associações de estudantes que não cumprem deliberadamente as decisões das Reuniões Gerais de Alunos (RGAs). Outras pouco se envolvem nas acções de propaganda ou propõem levar faixas em branco nas manifestações. Verifica-se também a utilização de palavras de ordem esvaziadas de conteúdo político, sendo gritado apenas o nome da cidade de origem dos estudantes.
«A Federação das Escolas Politécnicas decidiu fazer uma manifestação na Guarda para depois justificar a sua não participação maciça na manifestação de 5 de Novembro. O que é que há na Guarda que justificasse que o Politécnico se mobilizasse lá?», questiona Vasco Cardoso.
O dirigente da JCP fala de outro caso, ocorrido na manifestação de 16 de Outubro, em Lisboa, onde dirigentes de uma associação ligada ao PS incentivaram os colegas a gritar «Esta propina não», entrando em confronto com as outras palavras de ordem. «Foi engraçado verificar, no decorrer da manifestação, o conflito entre a AE e os próprios estudantes que não compreendiam porque é que a sua AE tinha uma palavra de ordem completamente diferente», comenta.

Radicalização intencional

Muitos dirigentes estudantis procuraram lateralizar a discussão, desviar a atenção para outros aspectos ou centrar a luta em torno das reitorias e dos órgãos de gestão, declara Vasco Cardoso. «Houve situações em que a própria direita radicalizou o discurso ao ponto deste se desligar do sentimento concreto vivido pelos estudantes, com prejuízos para a luta, e em algumas circunstâncias assumindo iniciativas e depois boicotando-as propositadamente para depois dizer que os estudantes não estavam com a luta», especifica.
Algumas destas estruturas associativas procuraram não se demarcar dos protestos para não ficarem isoladas no movimento estudantil e na própria escola. «Para muitos estudantes seria incompreensível que as suas AEs não estivessem viradas para aqui», comenta.
«Decretar o fim da luta tem sido uma prática recorrente ao longo dos últimos anos. A dinâmica das massas estudantis não é esta e o descontentamento em relação à política do Governo é uma realidade», declara.

Protestos recomeçam em Março

O último Encontro Nacional de Direcções Associativas (ENDA), realizado em Coimbra a 30 e Novembro, agendou novas acções de protesto para o início do segundo semestre, nomeadamente uma semana nacional de acções descentralizadas no início de Março, uma greve nacional com data a fixar pelo próximo ENDA e uma grande jornada nacional de luta no Dia do Estudante, comemorado a 24 de Março.
Os estudantes defendem a revogação da Lei de Financiamento e contestam a aplicação de um regime de prescrições e o fim da participação dos seus representantes nos órgãos de gestão das escolas.


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