• Henrique Custódio

Pobres
Um estudo comparativo sobre salários e preços na União Europeia, publicado em recente edição do Tal & Qual, mostra como a situação portuguesa se degradou a níveis escandalosos.
O descalabro começa pelo salário médio mensal. Observe-se.
Enquanto, em Portugal, o dito salário médio mensal anda pelos 887,5 euros (177 contos e 500 escudos), em Espanha salta para os 1.485 euros (297 contos e 600 escudos – portanto, a caminho do dobro), em França cresce para 1.663 euros (332 contos e 600 escudos - ou seja, praticamente o dobro), no Reino Unido o salto chega aos 2.133 euros (426 contos e 600 escudos – apontando para o triplo do valor português) e, finalmente, a Alemanha com 2.498 euros (499 contos e 600 escudos – praticamente, o triplo).
Note-se que estamos a falar de «salário médio mensal», sem entrar em linha de conta com o facto de Portugal ser, entretanto, o país da União Europeia onde maior é o fosso tanto entre ricos e pobres, como entre o número dos primeiros (no nosso país há muito menos ricos) e o número dos segundos (Portugal é, de longe, o que tem mais pobres, isto tudo segundo dados recentes do Eurostat).
Dada esta brutal diferença de salários, seria de esperar que em Portugal o custo de vida fosse, pelo menos, algo mais baixo que nos seus «parceiros de União». Errado. Quer se fale de água mineral ou de uma saia Zara, de uma caixa de aspirinas ou de um Renault Clio – nos outros países é tudo mais barato mesmo em termos absolutos, o que significa que, em termos relativos, as diferenças são muito maiores, quase abissais – aliás evidentes no tempo de trabalho necessário para adquirir o mesmo produto.
Um exemplo. Enquanto, em Portugal, para se adquirir um leitor DVD de 129 euros um português necessita de 28 horas de trabalho, na Alemanha esse mesmo aparelho não apenas custa 129 euros (menos 20 que em Portugal), como bastam nove horas para o adquirir... E, já agora, sabem que um simples Renault Clio custa menos 2000 euros (400 contos) até em Espanha, enquanto um Mercedes de 100 mil euros (20 mil contos) custa, na Alemanha, pouco mais de metade deste preço? Quanto às horas de trabalho necessárias para adquirir, por exemplo, o Clio, as diferenças são chocantes: em Portugal são necessárias 2.758 horas, em Espanha 1.381 horas (menos de metade), em França 1.339 horas, no Reino Unido 1.065 horas (quase um terço) e na Alemanha apenas 884 horas (menos de um terço...).
Recordemos, entretanto, algumas coisas.
Há pelo menos 15 anos que tanto o PS como o PSD (os dois «partidos de poder» que, efectivamente, nos têm governado, sempre com a mesma política de direita) se inflamam na promoção da entrada de Portugal na União Europeia, com a repetida promessa de que «nos vamos aproximar dos outros cidadãos europeus» em matéria de salários e poder de compra. O resultado está à vista: não apenas nunca nos aproximámos como, de ano para ano, nos afastamos cada vez mais...
A prova mais curta e rápida está mesmo aqui ao lado. A Espanha, há 15 anos, registava um poder de compra e um salário médio semelhante a Portugal; hoje, o salário médio em Espanha encaminha-se para o dobro, o poder de compra já atingiu esse dobro e a generalidade dos produtos são mais baratos, mesmo em termos absolutos...
Afinal, que classe dirigente é esta, que nos governa e mente tão ininterruptamente há tantos anos? E que «mundo empresarial» e «iniciativa privada» são estes, que tomaram conta de todas as alavancas do poder económico para um desastre contínuo e, pelos vistos, irrevogável?
Quantos pobres são necessários para fazer um rico? – perguntava Almeida Garrett em Viagens na Minha Terra.
Depende. Se for em Portugal, são necessários não apenas muitos mais, mas sempre cada vez mais...


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