• Gustavo Carneiro

Globalização, dominação, exploração
Responder às estratégias do capitalismo
Conhecer as estratégias de dominação das multinacionais é fundamental para preparar a resposta dos trabalhadores à ofensiva contra os seus direitos. Foi este o principal objectivo do debate promovido pelo PCP no passado sábado, que reuniu na Atalaia cerca de uma centena de militantes cuja actividade está ligada a estas empresas.
Coube a Francisco Lopes, da Comissão Política, abrir o debate, fazendo uma caracterização da situação das multinacionais em Portugal. O dirigente do PCP constatou o crescente peso destas empresas em múltiplos sectores de actividade económica. Alguns estão mesmo, quase por completo, nas suas mãos.
Esta tendência, verificável em Portugal, não é exclusiva do nosso País. Muito pelo contrário. A chamada «globalização», prossegue Francisco Lopes, revela a tendência imperialista do capitalismo, disposto a estender os seus tentáculos a todos os cantos do planeta.
Em todo o lado, pretende-se eliminar a capacidade de intervenção dos estados na economia. A intensificação da exploração e o aumento dos lucros assim o exige. Em troca da sua instalação em determinado país, as empresas exigem «incentivos» e a retirada de direitos aos trabalhadores. Os governos, normalmente, cedem. Ou colaboram. As decisões, pelo menos as que contam, não são tomadas por eles, mas pelos grandes grupos económicos e financeiros, através das suas estruturas internacionais, como a Organização Mundial do Comércio, o Fundo Monetário Internacional ou o Banco Mundial. Os governos são fantoches, mas não inocentes.
Para António Marques, o domínio do sector têxtil por parte das multinacionais prejudica a economia nacional. Até porque as empresas deste sector estão a abandonar o País. Das 400 que existiam, sobram 40.
E este domínio avassalador causa dependência. No Norte, acusa António Marques, a maioria das empresas nacionais trabalham actualmente para a espanhola Zara, de Amâncio Ortega, considerado o homem mais rico do país. Outro dos factores de dependência é o chamado franshising, no qual estão envolvidos muitas empresas nacionais, que têm que pagar às empresas estrangeiras para fabricar e comercializar produtos com as suas marcas.
Na opinião de Sérgio Ribeiro, membro do Comité Central, a forte concorrência internacional e o alargamento da dimensão das empresas provoca «deformações monopolizantes». Estas são hoje notórias em vários sectores.
O sector automóvel é particularmente revelador. Em 1990, eram 20 os construtores de automóveis, enquanto que em 2000 estes ficavam-se pelos 15. Para 2010, prevê-se que restem entre 7 e 10 empresas. Nos fabricantes de equipamentos, a concentração é ainda maior, e mais rápida. Dos 30 mil existentes no início da última década do século passado, restavam em 2000 cerca de 5500. No ano 2010, ficarão apenas 3 500, das quais vinte concentrarão cerca de metade da facturação.

Rolo compressor de direitos

Para Domingos Abrantes, da Comissão Política, a valorização do capital passa, hoje, apenas pelo agravamento da exploração. Que se faz de forma brutal, mas por vezes refinada. Como momentos antes afirmara Francisco Lopes, a pressão sobre os trabalhadores e as suas organizações de classe é grande, e feita por diferentes vias: desde a repressão dos trabalhadores mais activos às ameaças de deslocalização, passando por um conjunto de requintados processos de convencimento (ver exemplo da Autoeuropa).
Sendo a organização e unidade dos trabalhadores o único obstáculo que as separa dos seus objectivos de brutal aumento da exploração, as multinacionais procuram quebrá-las. José Machado conta que nas multinacionais do ramo da fabricação de material eléctrico e electrónico são sistematicamente violados os direitos laborais e sindicais. Em muitas delas os plenários são proibidos e a actividade dos delegados sindicais é limitada e perseguida. Há casos, prossegue, em que participar numa reunião ou plenário sindical pode representar perder o direito ao prémio, designadamente de produção.
Os salários são baixos e os ritmos de produção impostos são sobre-humanos, denuncia. O resultado mais pungente da política destas empresas no sector é o grande número de trabalhadores que deixa inválidos, com tendinite. José Machado estima que em Portugal existam cerca de 15 mil operários afectados pela doença. E acusa os governos de nada terem feito para impedir a continuação desta situação.
António Quintas, metalúrgico, revela que, no sector automóvel, o patronato tenta cumprir o objectivo por outras vias, chegando ao ponto de patrocinar organizações divisionistas, como os sindicatos de empresa, dominados pelas administrações. A disseminação, junto dos trabalhadores, da ideia de co-gestão, procurando amarrar os trabalhadores às decisões dos patrões; a eliminação das categorias profissionais, «promovendo» todos a «técnicos» (com a consequente perda de salários); e a quebra das solidariedades através dos prémios são algumas das técnicas utilizadas para quebrar a unidade e a luta. Mas «a bem».
Manuel Guerreiro conta que nas grandes superfícies comerciais, dominadas por grandes multinacionais, a constituição de fortes hierarquias condiciona os comportamentos dos trabalhadores. Em sua opinião, ganhar as chefias – quebrando a hierarquia – é essencial. A multiplicidade de horários existentes – que chega ao ponto de fazer com que em quarenta trabalhadores não haja dois com o mesmo horário – evita encontros à entrada ou à saída, indesejáveis para o patronato.

Lutar onde se dá a exploração

A presença do Partido nas empresas, nomeadamente nas grandes multinacionais, é fundamental para aumentar a consciência social e política dos trabalhadores e reforçar a sua unidade e luta. Jerónimo de Sousa, da Comissão Política, na intervenção de encerramento, destacou a importância da intervenção na empresa para a tomada de consciência social e política. «Só luta contra a exploração quem se sente explorado», afirma, lembrando que é no local de trabalho que se dá a exploração.
Para Francisco Lopes, a intervenção do Partido e dos sindicatos não pode ser igual nas multinacionais ao que é nas outras empresas. O dirigente comunista considera importante a coordenação da luta nas várias empresas do mesmo grupo, espalhadas pelo mundo, mas lembra que não há coordenação sem força. «Ganhar força onde estamos» é, assim, a primeira das prioridades.
Manuel Guerreiro, do sector do comércio e serviços, considera esta uma questão determinante. Até porque, conta, o comportamento das administrações altera-se. «Só falam connosco quando são obrigados a isso, quando temos força», assegura. E dá o exemplo da IBM, onde a administração, que até era dialogante, assumiu uma atitude arrogante no momento em que o sindicato perdeu força no interior da empresa.
Ernesto Ferreira trabalha na Tudor – propriedade do grupo multinacional Exide – e concorda com Manuel Guerreiro. Na Tudor, os salários são pagos de acordo com as categorias profissionais e há um conjunto de direitos que são respeitados. Serão os patrões da Tudor melhores que, por exemplo, os da Autoeuropa? Ernesto Ferreira tem outra teoria que talvez explique a situação: em 550 trabalhadores da empresa há 400 sindicalizados e a célula do Partido conta com 40 membros.

Confrontar ideologias

A intervenção e organização é necessária também para o combate ideológico. Sendo dominante a ideologia do capital – nas empresas e na sociedade – é fundamental, afirmou o membro da Comissão Política Domingos Abrantes, que o movimento operário intervenha com as suas ideias, a fim de conseguir «integrá-las nas massas para que ganhem corpo de movimento». Abrantes alertou para a facilidade com que muitas vezes o movimento operário adopta ideias e expressões que lhe são estranhas.
Temas como a concertação social, as ilusões acerca da co-gestão das empresas ou as concepções que aproximam as Comissões de Trabalhadores de uma espécie de «comissões de empresa», arremessadas contra o movimento sindical, são alguns dos que mais carecem de discussão, constatou-se no debate.
Jerónimo de Sousa realçou as características do sindicalismo da CGTP, garantes do prestígio que hoje goza. Para este dirigente comunista, é fundamental manter os princípios da central – unitária, democrática, independente, de classe e de massas – únicos nas centrais europeias.

«Lavagem ao cérebro» nas multinacionais
O exemplo da Autoeuropa

O domínio ideológico dos trabalhadores é uma questão vital para o patronato. Assim se torna mais fácil explorar e se aumenta várias vezes os lucros. Com métodos e incidências diferentes de umas para as outras – dependendo de muitos factores, entre os quais o grau de organização dos trabalhadores –, as multinacionais instaladas em Portugal não descuram esta questão. E são eficazes.
Coube a Eugénio Rosa ilustrar os métodos utilizados na Autoeuropa para controlar os trabalhadores e intensificar a produção. Uma primeira fase desta estratégia passa, para os novos trabalhadores, pela frequência do Common Core, um curso de formação na «cultura da empresa». Por outras palavras, uma lavagem ao cérebro.
Uma das características da comunicação da empresa, através do curso ou do jornal (cujos 95 números foram analisados por Eugénio Rosa), é a tentativa de mistificar a exploração. Esta seria substituída por uma outra realidade, em que não existem exploradores e explorados, em que todos – patrões e operários – são colegas, parte da «família Autoeuropa». Expressões como «fomos nós que o produzimos» ou «Vamos trabalhar todos juntos», publicadas em primeiras páginas do jornal, são disto exemplo.
O estímulo à competição é outra das estratégias desta empresa. Competição com quem? Com todos. Os outros construtores são um primeiro adversário que há que vencer. Mas não o único. Seguem-se as outras unidades da VolksWagen. «Competimos com os melhores e vamos ser melhores que todos eles», afirma o jornal da empresa referindo-se à quinta posição da Autoeuropa no quadro do grupo.
Mas a competição é fomentada ainda mais abaixo. No número 47, de Outubro de 1998, denuncia-se em primeira página a equipa alegadamente responsável pela maioria dos riscos e mossas verificados nos veículos e quais os custos dessas imperfeições.
O espírito de competitividade chega mesmo ao nível individual, pondo em competição os vários membros de uma mesma equipa. Em Maio de 1999, o jornal divulga os nomes dos «colaboradores» que receberam prémios da empresa. A cada um deles, foi distribuído um diploma, um relógio de pulso e um boné da empresa. As fotos dos escolhidos surgem no jornal.
Outro dos métodos utilizados é a ameaça do desemprego para implementar a flexibilidade do trabalho. Foi o que aconteceu em 2002, quando se antecipou que os dois anos seguintes não seriam muito «optimistas». «Uma solução é despedir em baixa e contratar em alta», lê-se no número 87. Outra solução é a flexibilidade. Feita a chantagem, foi mais fácil implementar a segunda, do agrado da empresa, por ser mais barato.
Eugénio Rosa considera não ser possível determinar com certeza os impactos destas pressões e deste condicionamento no aumento da exploração e dos ritmos de trabalho. Mas os dados divulgados pela empresa – que não revela nunca os lucros conseguidos – permitem algumas conclusões. Entre 2000 e 2003, a produção de carros por trabalhador aumentou 42 por cento e o custo por veículo diminuiu 36 por cento. Ou seja, produziu-se mais por menos. Quanto reverteu para os trabalhadores? Fica a questão.


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