Editorial

«Um congresso partidário é o retrato mais fiel do partido que o realiza»

UM CONGRESSO EXEMPLAR

Um congresso partidário – pela forma como é preparado, como funciona e como conclui – é o retrato mais fiel do partido que o realiza. E não há estratagemas nem verbalismos manobristas capazes de evitar que assim seja. A confirmá-lo aí está o XXV Congresso Nacional do PSD: um congresso exemplar, já que nos mostra, de forma concludente, o que é (do ponto de vista de funcionamento interno, de práticas e métodos políticos, de objectivos) aquele partido. Um partido que, recorde-se e sublinhe-se, aprovou recentemente (em conivência com o PS e o CDS/PP) uma «lei dos partidos» com a qual visa obrigar o PCP, mais coisa menos coisa, a fazer congressos iguais ao que ocorreu neste fim de semana...
Uma primeira conclusão a tirar do baixo espectáculo de Oliveira de Azeméis é que, para o PSD, a realização de um congresso é um acto fácil, rápido, banal, sem exigências de reflexão nem de debate; uma realização que é decidida, organizada e concretizada de um dia para o outro e que, por efeito de todas essa facilidades, pode acontecer quando quem tem força de decisão assim o entender. Os vinte e cinco congressos já realizados pelo PSD nos seus trinta anos de vida (quase um congresso por ano) são bem elucidativos de tais facilidades. E são, acima de tudo, o reflexo perfeito de um determinado estilo de trabalho partidário; de um muito concreto conceito e prática de funcionamento democrático interno; de um cuidado centralismo antidemocrático com a concentração de poderes absolutos num núcleo restrito, espécie de conselho de sábios; de uma cautelar ausência de debate entre os membros do partido, aos quais está destinada a exclusiva tarefa de votar favoravelmente as decisões tomadas pelo conselho de sábios - tarefa, como se vê, de fácil execução, plena de conteúdo democrático e elucidativa da riqueza da componente participativa em matéria de democracia interna (digamos assim) do PSD...

Cada congresso de cada um desses três partidos autores da «lei dos partidos» tem, naturalmente, as suas características específicas. Com efeito, embora todos eles se apresentem como modelos que devem ser seguidos por todo o universo partidário nacional – ser seguidos a bem ou a mal, por vontade própria ou à força (mas sempre democraticamente...) – há coisas que são tão próprias de cada um deles que fazem de cada caso um caso. Assim, nos congressos do PSD há ocorrências que só ali são possíveis: por exemplo, coisas como o Jardim a provocar «fartas gargalhadas e a adesão dos congressistas»; ou coisas com aquele «animador», que «quando o ambiente na sala está morno ou começa a arrefecer, é assediado para subir ao palanque e animar as hostes» - hostes essas que, acordando da «profunda sonolência» em que estão mergulhadas, revelam elevado sentido de humor e assinalável sensibilidade política; ou, ainda, coisas como o Santana Lopes – afamado «entertainer», também, mas mais no género do «inflamador de congressos» e que, em permanente e insanável conflito com a língua pátria, reduz a cultura e o saber a um monte de cinzas; ou, outra coisa divertida, o cabeça de lista do PSD a estabelecer critérios para os eurodeputados portugueses: «devem ser trabalhadores, patriotas, respeitados e credíveis». Critérios que excluiriam todos os candidatos do PSD se o dito cabeça de lista, ao aperceber-se disso, não lhes tivesse acrescentado a condição de «garantir a defesa da competitividade e do empreendedorismo»... Ainda para rir: o veemente, pungente e patético apelo lançado por Durão Barroso a propósito da escolha do candidato do partido às presidenciais: «Confiem em mim. Eu saberei encontrar uma solução no momento certo» - garantia que muito há-de ter agradado aos congressistas e, por isso, muito os há-de ter, também, divertido.

Se não estivéssemos a falar do congresso do partido que, porque está no Governo, tem a responsabilidade de governar o País, tudo isto não passaria de entremez jocoso, de divertida farsa, de comédia brejeira capaz de provocar meia dúzia de sonoras gargalhadas. Mas a verdade é que o Governo é isto.
E isto: Durão Barroso, certamente influenciado pelo democrático ambiente congressual – e elevando-se à altura de qualquer ministro do interior de Salazar – resolveu, ainda, exibir parte da sua face de provocador e despejou um acervo de acusações, ameaças e insultos contra o PCP. A provocação de Durão Barroso teve, de imediato, a resposta adequada, quer em intervenções do Secretário Geral e de outros dirigentes do Partido, quer na comunicado da Comissão Política que hoje publicamos no Avante! –aqui se sublinhando apenas que, 1º: eventuais «problemas» que venham a surgir no decorrer do Euro-2004, são da exclusiva responsabilidade de Durão Barroso e do seu Governo; e, 2º: o PCP, hoje como no passado, ocupará o lugar que lhe compete, apoiando, em todas as circunstâncias, todas as justas lutas dos trabalhadores.
Ao afirmar que estes dois anos de Governo PSD/CDS-PP «foram o lançar das bases para a década que vai mudar Portugal», Durão Barroso confirmou-se, ainda, como um triste, um melancólico, um monocórdico eco dos seus antepassados Cavaco Silva e António Guterres, que prometeram, cada um na sua década, exactamente o mesmo que Barroso está a prometer na dele.
E tudo isto, coloca aos trabalhadores e ao povo português a tarefa urgente de derrotar este Governo e esta política – objectivo cuja concretização passa por muitos caminhos de luta, um dos quais, de relevante importância, consiste no reforço da expressão eleitoral do PCP nas eleições de 13 de Junho.


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